
Uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão, apontam dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). As informações divulgadas pela entidade recentemente também dão pistas sobre como a sensação de abandono e desconexão, causadas pela falta de convívio social, causam um impacto grande na saúde global. São mais de 870 mil mortes prematuras a cada ano que acontecem com contribuição do isolamento. Um número alto. A título de comparação, a tuberculose (uma das infecções mais letais no mundo) mata cerca de 1,2 milhão de pessoas anualmente.
Em um discurso sobre o tema, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, explica as razões pelas quais a solidão tornou-se um problema sério nos tempos atuais.
“A rápida urbanização, mudanças demográficas, transformações digitais e o crescimento da desigualdade estão mudando a maneira com que nos relacionamos. Deixando pessoas sentindo-se desconectadas, não vistas e não ouvidas — disse o líder em saúde, que ressaltou que essa desconexão social é responsável por aumento de quadros como depressão, ansiedade e uma série de doenças crônicas.
Não à toa, Tedros Adhanom elencou a urbanização como um fator importante para essa medida tão perigosa. Especialistas em saúde mental e saúde pública têm alertado sobre o risco do avanço da solidão justamente nas grandes metrópoles, onde a organização da cidade — e os riscos relacionados à segurança pública — tornam a socialização difícil e custosa.
Uma análise recente, publicada no periódico Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, feita por pesquisadores norte-americanos, mostrou que as pessoas que mais relatam solidão são os “adultos mais jovens, mulheres, indivíduos com menor renda ou escolaridade, solteiros e residentes em áreas urbanas”.
A análise mostra que a solidão é maior em cidades grandes, com 41,4% das pessoas enfrentando quadros do tipo. É mais do que o visto nas áreas rurais (36% dos indivíduos com relatos semelhantes). O Brasil, avaliado na pesquisa, é um dos países líderes no isolamento, chegando a 47,5% das pessoas sentindo-se sós. O país fica atrás apenas das Filipinas (48,9%).
— Hoje vivemos em redes familiares menores e que são territorialmente mais dispersas. A expectativa de vida também aumentou, então vivemos mais com redes de apoio menores — explica Gabriela Vasconcelos economista, urbanista social e coordenadora de projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro, do Insper. — Nesses locais (as grandes cidades), há condições como jornadas extensas de trabalho, longo deslocamento, precariedade econômica, violência, espaços urbanos pouco acolhedores e outros fatores que diminuem o tempo e as oportunidades de convivência.
O impacto mental desses fatores é tremendo. Ainda de acordo com a OMS, a solidão dobra a probabilidade de um diagnóstico de depressão. Até mesmo casos de automutilação podem estar conectados a quadros solitários, além de crises de ansiedade. Pesquisadores do Instituto do Envelhecimento, Universidade de Wisconsin–Madison, apontam que pessoas solitárias são mais sensíveis a rejeições sociais. Eles interpretam, diz a análise, mais negativamente expressões faciais. E tornam-se mais rápidas para identificar reações negativas, como feições de medo, tristeza e raiva. Além disso, os mesmos pesquisadores, que revisaram outros estudos sobre o tema, afirmaram que esse público solitário tem pior qualidade de sono.
— O ser humano é social. Crescemos juntos dentro de um contexto de família, com interações, esse fato é essencial para a nossa espécie. Nós precisamos desse contato. A falta dele torna-se um estresse, será sempre um desconforto não tê-lo — afirma o psicólogo e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), Ronald Fischer. — Claro que isso tem medidas diferentes para as pessoas. Há quem precise de muito contato o tempo todo, outros ficam felizes em passar um dia inteiro sozinho e no outro tomar um cafezinho com um amigo.
De todo modo, explica Fischer, somos uma espécie que chega a ser descrita como “hiper social”. O que torna o contato entre diferentes indivíduos como fundamental. E isso é reforçado até mesmo pelo desenvolvimento humano como espécie, no qual foi necessário unir-se em grupos para sobreviver de animais, inimigos e doenças.
— Dependemos de outras pessoas. Dá para se adaptar (à solidão) em certa medida, mas sempre será um estresse. Isso é um dado da psicologia humana — diz.
Faixas etárias
A solidão, apontam os especialistas, é mais dura em certas fases da vida. Sobretudo na adolescência e nos primeiros anos da vida adulta. Isso porque é o momento de formação da identidade, afirma Fischer. Acima dos 60 anos, esse estado também é crítico. Por tratar-se de um momento em que é mais comum deparar-se com o luto pela perda de amigos e familiares além de ser uma fase em que os pais não convivem mais diariamente com os filhos, que já saíram de casa.
Mães com filhos recém-nascidos também aparecem entre os grupos que podem sentir a solidão com mais intensidade.
A psicóloga clínica Ilana Pinsky que lançará o livro “Longevidade hoje” (Fósforo Editora), com a também psicóloga Sharon Sanz Simon, diz que um fator que a preocupa em atendimentos psicológicos é quando o paciente, apesar de sentir os efeitos da solidão, acha que não vale mais a pena ter relações sociais.
— Não dá para simplesmente desistir dos relacionamentos. Lembro que é uma parte importante da vida e temos que continuar com eles até o final — afirma a psicóloga. — A relação entre pessoas exige empatia, processamento de linguagem, leitura de expressões faciais, tolerância entre tipos diferentes de identidade. É extremamente desafiador. Mas não é possível desistir dessa parte da vida.
Iniciativas
Ilana, porém, reforça a ideia de que cada um tem sua medida e que algumas pessoas tendem a passar bem algum tempo sozinhas, por decisão própria. Não dá, diz ela , para estipular uma média única do quanto deveríamos conviver com outras pessoas. O relógio interno importa (e muito).
— É muito importante que a medida da solidão não se torne outro aspecto da vida em que ficamos fazendo mensurações. Como metas de proteína a bater. Podemos precisar de um tempo sozinhos, isso é normal. O problema é quando isso se torna crônico. E lembremos sempre: relações casuais também contam. Conversar com o padeiro, o porteiro, também fazem parte das nossas interações — avalia.
Em termos mais globais, ainda é difícil determinar quais são as intervenções coletivas ou sociais que obrigatoriamente vão reduzir a solidão nas áreas em que forem aplicadas. Embora Gabriela Vasconcelos, do Insper, lembre que é necessária uma governança compartilhada: que inclua desde o Ministério da Saúde, a sociedade civil, até prefeituras focadas em aplacar os efeitos da solidão. E ressalta que essa não é apenas uma tarefa individual, pois reflete o atual ordenamento das cidades.
Enquanto ainda não se desenha esse grande pacto para lidar com o isolamento nas grandes metrópoles, há iniciativas de baixo custo que podem trazer benefício para quem as aplica.
— Comprometer-se a ligar para um amigo uma vez por semana, ou a cada dois dias, ou então manter um grupo de exercícios com amigos num parque ou uma praça também é muito positivo. Porque você já combina junto de fazer exercícios. O que dá mais força ao corpo e mais energia para se relacionar depois — orienta Robert Fischer.
Fonte: O Globo





