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O que mais envelhece é a ideia de envelhecer

Dois homens planam de paraquedas – Sergei/Adobe Stock

Bem que dizem: quando o assunto é envelhecer, os homens descem de escada e as mulheres, de elevador. De um dia para outro, cheguei aos porões da menopausa. E tudo caiu junto: bunda, bíceps, taxa de estrogênio, cabelos.

O baque foi tão grande que pensei que era o fim. Se continuasse perdendo músculos, hormônios e ânimo naquele ritmo, me tornaria um tufo de cabelos no ralo da vida —tufo não, tufinho.

Obviamente, minha autoestima foi para os chinelos, rotos, que eu arrastava pela casa nas noites de calorão e insônia. Em uma dessas madrugadas, sonhei com um amigo que não vejo desde os vinte e poucos anos. Na época, ele me apresentou uma cidade. Depois, me levou para pular de paraquedas.

No devaneio, ele usava óculos grandes, de lentes espelhadas, e, sorrindo, me dizia: “never too old”. Por que em inglês? Não faço a menor ideia, mas sei que a frase ficou comigo. Colei-a na capa do celular e passei a olhar para ela como um lembrete.

Tendo começado a fazer ioga perto dos 50 anos, pensei que jamais faria um “drop”, aquela queda com o corpo para trás, em que o tronco se torna uma espécie de tampo de mesa, sustentado por pernas e braços. Quando a professora sugeriu que eu fizesse pela primeira vez essa posição, comecei a papagaiar que tinha mais de meio século de vida, que não tinha mais idade para isso, até que lembrei “never too old” e me joguei —sem paraquedas— sobre o tapete.

Deu certo. Desde então, venho fazendo essa posição todos os dias e vendo a vida sob outro ângulo. De ponta-cabeça, assisti a um casal de amigos, da mesma idade que eu, se separar, depois de 30 anos de casamento. Pela primeira vez, ele começou a namorar com homens. Ela, a viver relações não monogâmicas. Outra, de 60, até então sedentária, se tornou uma peregrina cujas pegadas já foram de Compostela ao Chipre. Outra se casou aos 81. Outro, caretão, começou a fumar maconha para aliviar o glaucoma e virou, com certeza, um tardio maluco beleza.

Claro que um corpo velho não é igual a um corpo jovem, mas pode se aproximar, a depender do que cada um faz com a sua massa.

Inclusive, com a cinzenta. O que envelhece o corpo é o tempo. O que envelhece o sujeito é a ideia de envelhecer.

Quando me descobri na menopausa, eu estava muito mais velha do que agora, quando vejo a vida de cabeça para baixo e me pergunto: tô velha pra quê?

Não estou velha para usar minissaia. Para me tornar ciclista ou budista. Não estou velha para mudar de cidade ou país. Para cantar K-pop. Para aprender romeno. Para subir na mesa de uma festa e dançar com as mãos para cima, como andei fazendo esses dias. Para mostrar a bunda no Carnaval, como também fiz e andei contando aqui, em outra coluna.

Jamais, nem aos 70, nem aos 80, estarei velha demais para me apaixonar por alguma coisa ou alguém. Talvez eu esteja meio velha para ser ginasta, mas nem isso, porque sempre poderei balançar no ar uma vara com uma fita colorida.

Acima de tudo, cheguei à conclusão de que nunca estarei velha o bastante para morrer. Como gosto desse lugar em que todo dia amanhece e temos a chance de fazer tudo de novo, de um outro jeito. Enquanto houver no meu rosto uma boca para beber vinho e trocar ideias: “never too old”.

Fonte: Folha de S. Paulo