
Se por um lado a inteligência artificial (IA) trouxe mais praticidade para o dia dia, por outro ela pode ser usada de forma perigosa. Os vídeos falsos que utilizam imagens de médicos e personalidades conhecidas, por exemplo, colocam a saúde de idosos em risco ao divulgar informações sem comprovação científica e promover supostas curas milagrosas.
Chamados de deepfakes, esses conteúdos gerados por IA muitas vezes incentivam, inclusive, o abandono de tratamentos. Segundo Clayton Macedo, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a desinformação em saúde pode modificar comportamentos e colocar vidas em risco.
O caso fica ainda mais sério quando a promessa envolve curas rápidas para doenças como diabetes, obesidade e problemas de tireoide.
“Os oportunistas acabam se aproveitando da dor do paciente, especialmente pela cronicidade das doenças. Na medicina, mentiras convincentes podem trazer consequências graves”, alerta ele.
Riscos da desinformação em saúde
Ao acreditar em fórmulas milagrosas sem evidência científica, muitas pessoas, em especial os idosos, pulam etapas importantes do acompanhamento de saúde na esperança de soluções rápidas. “O paciente pode atrasar o diagnóstico, abandonar um tratamento eficaz ou ainda utilizar substâncias sem comprovação e potencialmente perigosas”, destaca o médico.
De acordo com o especialista, um paciente com diabetes que interrompe medicamentos corre o risco de passar por uma descompensação grave aguda, passível de internação. “Um paciente com diabetes tipo 1, que abandona a insulina, pode ter um quadro gravíssimo de cetoacidose diabética, capaz de levar ao coma e à morte”, exemplifica.
Da mesma forma, uma pessoa com obesidade, ao trocar uma terapia comprovada por produtos sem evidência de eficácia e segurança, pode sofrer complicações.
“Nenhuma mudança terapêutica deve ser realizada baseada em um vídeo de internet, por mais que ele pareça absolutamente verdadeiro”, aconselha Macedo.
O que circula pelas redes
Um vídeo sobre um suco de batata para gastrite teve mais de 2,2 milhões de visualizações antes de ser removido. Outro, que prometia “desentupir artérias” com receitas caseiras, teve mais de 2,6 milhões de visualizações e mais de 60 mil compartilhamentos.
Enquanto isso, um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) analisou quase 170 mil anúncios no Facebook e no Instagram e constatou que mais de 76% eram enganosos. Entre mais de 6 mil anúncios analisados individualmente, cerca de 5 mil eram golpes relacionados à saúde.
Segundo Marcia Umbelino, médica clínica geral pós-graduada em geriatria, se a mensagem dada pela IA ajuda e fala aquilo que o paciente quer ouvir, ele compra a ideia. “Muitas vezes, pacientes idosos não comentam com ninguém e simplesmente suspendem a medicação. Só vamos detectar com uma complicação e um desdobramento não esperado”, conta.
Isso acontece principalmente com idosos porque, segundo a especialista, eles ainda não estão totalmente adaptados na transição do analógico para o digital. “Eles têm acesso ao celular, mas muitas vezes não têm um bom manejo. Também não possuem o hábito de investigar se a informação é falsa ou verdadeira”, analisa.
Como acreditam que se está na internet, a sugestão é segura, a recomendação é a família explicar a situação para o idoso. “Você pode mostrar a diferença de uma foto normal e uma foto gerada por IA, assim como os vídeos. Estejam ainda ao lado da pessoa quando ela for fazer uma compra online, explique e interaja. Isso é o mais importante”, orienta.
Casos que ganharam repercussão
- Dr. Drauzio Varella: sua imagem foi utilizada em diversos anúncios fraudulentos para vender suplementos e supostos tratamentos para doenças graves. O médico chegou a acionar o Ministério Público;
- Dr. Hélio Brasileiro: aparece vestindo jaleco, prometendo curas para diabetes, Alzheimer, doenças cardiovasculares e outras enfermidades. Entre os exemplos, estão vídeos afirmando que o banho quente pode sobrecarregar o coração, que determinados alimentos fazem mal após os 60 anos e orientações para que idosos hipertensos abandonem medicamentos, alegando que “fazem mal aos rins”, sugerindo, em seu lugar, alternativas como suco de maracujá;
- Ratinho: apareceu falsamente em um vídeo recomendando um produto que prometia recuperar a visão. O conteúdo foi identificado como um deepfake;
- Nélson Araújo: o jornalista teve sua imagem manipulada para parecer que recomendava um produto contra Alzheimer durante participação em um programa de televisão. O vídeo também foi desmentido.
Como identificar um vídeo falso?
A maneira mais fácil de identificar os vídeos feitos por IA, segundo Umbelino, é perceber a falta de sincronia do movimento da boca com o som da pessoa falando. Entretanto, como muitos vídeos são muito bem feitos, também é essencial procurar fontes de informações médicas confiáveis.
Macedo indica desconfiar de expressões como “cura garantida”, “resultado imediato”, “o médico não quer que você conheça” e “a indústria não deixa que você use”.
Nunca deve-se interromper ou ajustar um tratamento sem orientação médica. Na dúvida, o ideal é pedir ajuda e buscar a avaliação de um especialista.
Fonte: Portal Drauzio Varella





