
Vivemos obcecados pela longevidade. Nunca se falou tanto em suplementos, exames, testes genéticos ou terapias antienvelhecimento. A promessa é sempre a mesma: viver mais. Mas talvez estejamos focando a questão errada. Em vez de buscar apenas mais anos de vida, não deveríamos nos perguntar como viver melhor os anos que teremos?
Essa é a reflexão que atravessa “Viva saudável até os 100 anos: O que a ciência aprendeu com as Zonas Azuis” (Editora Manole), organizado pela nutricionista Adriana Trejger Kachani e pelo psiquiatra Marcus Vinicius Zanetti. Em vez de vender atalhos para a longevidade, o livro reúne especialistas que analisam, com base em evidências científicas, o estilo de vida das cinco regiões do planeta onde há maior concentração de centenários saudáveis: Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Icária, na Grécia; Península de Nicoya, na Costa Rica; e Loma Linda, na Califórnia.
Uma constatação: essas comunidades têm culturas, religiões, hábitos e histórias bem diferentes. Ainda assim, compartilham comportamentos que parecem proteger a saúde ao longo da vida. A genética tem sua importância, claro. Mas o livro reforça aquilo que a ciência vem demonstrando cada vez mais: nossos genes não escrevem sozinhos o roteiro do envelhecimento. A epigenética mostra que alimentação, ambiente, atividade física, vínculos afetivos e até a forma como lidamos com o estresse influenciam a expressão genética durante toda a vida.
Foi dessa observação que nasceram os nove princípios das Zonas Azuis.
O primeiro deles é mover-se naturalmente. Os centenários dessas regiões não passam horas na academia. Eles caminham, cuidam da horta, sobem escadas, cozinham, vivem em ambientes que estimulam o movimento espontâneo.
O segundo é conhecer seu propósito. Os japoneses de Okinawa chamam isso de ikigai, a razão para acordar todos os dias. Estudos mostram que ter um propósito está associado a menor mortalidade, melhor saúde mental e maior resiliência ao longo do envelhecimento.
Outro princípio fundamental é desacelerar. Em tempos de agendas lotadas e notificações incessantes, parece quase um ato de rebeldia. Nas Zonas Azuis, fazer pausas, cultivar momentos de contemplação, espiritualidade ou convivência familiar reduz o estresse crônico, um dos maiores aceleradores do envelhecimento.
Nas cinco regiões, a alimentação prioriza vegetais. Cerca de 95% da dieta é composta por legumes, grãos integrais, frutas, feijões e castanhas, com pouca proteína animal e se ultraprocessados. A regra dos 80% orienta as pessoas a parar de comer antes da saciedade completa, evitando excessos. O livro também desfaz um mito frequente: beber com moderação não significa que o vinho seja um segredo da longevidade. Quando o álcool aparece, ele faz parte de um contexto social e cultural, e não de uma estratégia para viver mais.
O livro mostra que os princípios mais negligenciados pela sociedade moderna são justamente aqueles que não cabem em um comprimido. Experimentar o pertencimento, valorizar a família e cultivar a espiritualidade aparecem como pilares comuns entre populações que envelhecem com autonomia, felicidade e forte integração social. Não por acaso, essas comunidades figuram entre as mais felizes do mundo.
Ao terminar a leitura, fica claro que buscamos respostas complicadas para um desafio cuja solução pode ser, em grande parte, mais simples. Não existe fórmula mágica para chegar aos 100 anos. Mas existe, sim, uma receita consistente para aumentar as chances de viver mais e melhor — e ela passa menos pelas últimas novidades da medicina e muito mais pelo bom senso e pelas escolhas que fazemos todos os dias.
As Zonas Azuis nos lembram de uma verdade que frequentemente esquecemos: longevidade não é apenas acrescentar anos à vida. É acrescentar qualidade de vida aos anos vividos.
Fonte: O Globo – Por Angelica Banhara





