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Musculação pode desacelerar envelhecimento cardíaco em idosas, mostra estudo

Treino de força foi associado à melhora de marcadores relacionados à saúde cardiovascular em mulheres idosas Foto: ChayTee /Adobe Stock

O treino de força, tradicionalmente associado ao ganho de massa muscular, também pode beneficiar o coração. É o que indica um estudo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que acompanhou mulheres saudáveis com 60 anos ou mais e observou melhora na estrutura e na função cardíaca entre aquelas que praticaram musculação.

A pesquisa acompanhou 64 participantes durante dois anos. Ao final do período, as mulheres que seguiram um programa de treinamento resistido apresentaram melhora em parâmetros de estrutura e função do coração. Já entre aquelas que permaneceram sedentárias, houve piora progressiva de parâmetros ligados ao envelhecimento cardíaco.

Os resultados foram publicados na revista científica Medicine & Science in Sports & Exercise, principal periódico do American College of Sports Medicine (ACSM). O trabalho é um dos primeiros ensaios clínicos randomizados a acompanhar, por dois anos, os efeitos isolados da musculação sobre a estrutura e o funcionamento do coração de mulheres idosas.

Como o envelhecimento afeta o coração

Assim como outros órgãos do corpo, o coração sofre alterações naturais com o passar dos anos. Entre elas estão o espessamento das paredes e o endurecimento do músculo cardíaco.

Essas alterações aumentam o risco de insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, em que o coração continua bombeando o sangue normalmente, mas tem dificuldade para relaxar entre um batimento e outro. O problema é mais comum em mulheres acima dos 60 anos e ainda tem poucas opções de tratamento.

“Isso faz com que a pressão aumente dentro do órgão e do pulmão durante os esforços, provocando sintomas como falta de ar”, explica o cardiologista e pesquisador Ricardo Rodrigues, um dos autores do estudo.

Segundo ele, a motivação da pesquisa surgiu justamente da alta frequência desse quadro entre mulheres idosas e da falta de estratégias capazes de preveni-lo.

Efeito que chamou a atenção

Embora a divulgação do estudo tenha destacado a redução dos sinais de envelhecimento cardíaco, Rodrigues afirma que o resultado mais importante foi outro.

“O principal achado foi a melhora da função diastólica, ou seja, da capacidade de o coração relaxar. Quanto mais rápido ele consegue relaxar, melhor é o funcionamento cardíaco”, explica.

Na prática, isso significa que o músculo cardíaco tornou-se mais flexível após dois anos de treinamento.

Os pesquisadores também verificaram uma redução de 5,5% no índice de massa do ventrículo esquerdo entre as participantes que praticaram musculação. Esse índice é considerado um marcador do envelhecimento cardíaco e está associado a um maior risco de problemas cardiovasculares. No grupo que permaneceu sedentário, esse mesmo indicador aumentou 11% ao longo dos dois anos.

Além disso, as participantes que treinaram apresentaram melhora em outros indicadores de saúde, como pressão arterial, colesterol, glicemia e composição corporal.

Embora o estudo não tenha investigado os mecanismos biológicos responsáveis por essas mudanças, Rodrigues explica que a literatura científica aponta que o exercício físico reduz processos inflamatórios, melhora a função dos vasos sanguíneos e favorece a liberação de substâncias produzidas pelo tecido muscular e pelo tecido adiposo que ajudam a proteger o sistema cardiovascular.

Um novo olhar para a musculação

Durante muitos anos, os exercícios aeróbicos ocuparam o centro das recomendações para prevenir doenças cardiovasculares. A musculação costumava ser indicada principalmente para aumentar força e massa muscular.

Na avaliação do pesquisador, os novos resultados mostram que o treinamento resistido também merece espaço quando o objetivo é preservar a saúde do coração.

“Até então, a musculação era vista como coadjuvante. O estudo demonstra que ela também melhora a função do coração e pode beneficiar pessoas que têm dificuldade para caminhar, correr ou realizar outras atividades aeróbicas”, diz.

Segundo ele, esse aspecto é especialmente importante para idosos com limitações articulares ou dores, que muitas vezes não conseguem manter exercícios de maior impacto.

Outro diferencial é que o protocolo utilizado na pesquisa não exigiu equipamentos especiais. Os exercícios podem ser reproduzidos em academias convencionais, desde que realizados de forma orientada.

Efeitos também aparecem no metabolismo

Para o cardiologista Pedro Senger, coordenador do Departamento de Educação Física da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), preservar a massa muscular é um dos pilares do envelhecimento saudável.

“Ter músculos é essencial para a longevidade e para manter a independência. Pessoas com maior massa muscular são menos internadas por doenças cardiovasculares e, quando precisam de internação, costumam receber alta mais cedo”, afirma.

Ele destaca que a musculação também ajuda no controle de fatores de risco importantes, como hipertensão, diabetes e colesterol elevado.

“Quanto maior a massa muscular, maior é o consumo de glicose pelo organismo, reduzindo o risco de diabetes tipo 2. Além disso, o músculo funciona como um órgão endócrino, produzindo substâncias com ação anti-inflamatória”, explica.

Exercício aeróbico continua sendo indispensável

Apesar dos resultados, os especialistas fazem um alerta: a musculação não substitui caminhadas, bicicleta, corrida ou outras atividades aeróbicas.

“O ideal é combinar as duas modalidades. Elas não competem, elas se complementam”, afirma Senger. Segundo ele, ainda há um volume maior de evidências mostrando os benefícios dos exercícios aeróbicos para o coração, mas isso não diminui a importância do treino de força.

Rodrigues compartilha da mesma avaliação. Para ele, a melhor estratégia é unir cerca de 30 minutos de atividade aeróbica a um programa estruturado de musculação realizado três vezes por semana.

“Você preserva a massa muscular, melhora a mobilidade, reduz o risco de quedas e ainda obtém benefícios cardiovasculares”, complementa.

Os resultados valem para todos?

Embora os pesquisadores acreditem que os benefícios possam se estender a outras populações, o estudo foi realizado apenas com mulheres saudáveis acima dos 60 anos. Por isso, cientificamente, as conclusões devem ser aplicadas à população estudada, enquanto novas pesquisas avaliam os efeitos em homens e em pessoas com outras condições de saúde.

Para quem nunca praticou musculação, Senger recomenda uma avaliação médica antes de iniciar os treinos, especialmente para identificar doenças cardiovasculares já existentes e definir a intensidade mais adequada. Sinais como dor no peito, falta de ar intensa, tontura, desmaios ou palpitações durante a atividade devem ser encarados como alerta para interromper o exercício e procurar atendimento médico.

Fonte: Estadão