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Presidente de entidade usou filha de deputado para chantageá-lo no caso INSS, diz PF

O deputado Eros Biondini (PL-MG) durante discurso no plenário da Câmara dos Deputados – Vinicius Loures/Divulgação/Câmara dos Deputados

A Polícia Federal afirma que o presidente da Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais), Carlos Lopes, tentou chantagear o deputado Eros Biondini (PL-MG) com a ameaça de divulgar que a filha do congressista, Chiara Biondini, recebeu pagamentos da entidade.

Segundo os investigadores, Carlos mobilizou o plano no fim de 2025, após se sentir traído pelo apoio dado pelo deputado à CPI mista do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e por um pedido de Biondini de investigação sobre a execução de uma emenda de R$ 5 milhões que ele mesmo havia direcionado ao ITT (Instituto Terra e Trabalho), ligado à Conafer.

Em nota conjunta, o deputado Biondini e a filha disseram que contribuíram para as apurações da PF e que o relatório de investigação “não identificou qualquer ato irregular e muito menos atitude ilícita dos dois congressistas”.

A reportagem enviou mensagens a dois emails do ITT cadastrados em sistemas do governo federal e para o advogado do presidente do instituto, Vinícius Ramos, mas não recebeu resposta sobre o conteúdo do relatório da PF.

Em nota, a Conafer disse que respeita o trabalho da PF, mas que é “indispensável esclarecer, contudo, que o indiciamento constitui uma manifestação produzida na fase investigativa”, não representando denúncia oferecida pelo Ministério Público, tampouco julgamento ou condenação judicial.

A suposta chantagem é descrita no relatório da PF que concluiu o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto, sobre descontos indevidos no INSS, com 48 indiciamentos relacionados ao caso da Conafer. Eros e Chiara não estão entre os indiciados, enquanto Carlos e Vinícius constam na lista.

Segundo a apuração da polícia, Chiara foi contratada em 2021 pela Conafer, aos 19 anos, e recebeu ao menos seis pagamentos de R$ 10 mil. Em 2023, ela assumiu o mandato de deputada estadual em Minas Gerais pelo PL.

Em diálogos obtidos pela PF, Vinícius Ramos diz ao presidente da Conafer que Chiara recebeu “sem fazer nada”. A corporação afirmou que Chiara “recebeu salários fictícios” da Conafer, “o que motivou a liderança da organização criminosa a usar o episódio como instrumento de chantagem”.

Os presidentes da Conafer e do ITT teriam pedido ao deputado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) que repassasse a Eros a insatisfação e a ameaça de expor os pagamentos a Chiara.

A PF disse que “Carlos e Vinícius utilizaram os comprovantes dos pagamentos feitos pela Conafer a Chiara como instrumento de chantagem política contra o deputado Eros Biondini”, usando o deputado Euclydes.

Em outro diálogo, o presidente da Conafer afirmou para Vinícius não divulgar os pagamentos, “para não cair para cima da Conafer pagamento de propina”.

Para a PF, a conversa mostra que Carlos, classificado como “líder do esquema”, admite que os pagamentos a Chiara “eram atos de corrupção ao ordenar que Vinícius não vazasse os comprovantes de pagamentos para não atrair a acusação de ‘pagamento de propina’ para cima da Conafer”.

Vinícius também teria dito que Eros prometeu obter notas do TCU (Tribunal de Contas da União) e do Ministério do Trabalho favoráveis à Conafer.

Eros Biondini e Chiara disseram, em depoimentos à PF, que ela foi contratada após processo seletivo. Ela relatou aos investigadores que pedia para receber tarefas, mas era sempre orientada a aguardar, o que teria lhe “gerado forte incômodo e insatisfação”, segundo o relatório.

O deputado federal também disse que indicou emendas para o ITT por orientação de Euclydes, e que não sabia da ligação da entidade com a Conafer.

Para a Polícia Federal, o caso também demonstra que o ITT “é umbilicalmente ligado” à Conafer.

Euclydes Pettersen foi indiciado por suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo o relatório da corporação, o congressista teria se beneficiado de pelo menos R$ 14,7 milhões em suposta propina mensal fracionada pelas contas de passagem de lotéricos e empresas laranja.

Euclydes afirmou que não tem “qualquer participação nos fatos apurados” na operação Sem Desconto. Diz ainda que a versão da investigação será confrontada pela defesa.

Fonte: Folha de S. Paulo