
“De repente, me vi velho.”
A frase de Ziraldo, dita já aos 90 anos, chama a atenção por sua simplicidade. Afinal, o criador do Menino Maluquinho não acordou velho de um dia para o outro. Envelheceu durante décadas. Ainda assim, a sensação que descreveu é familiar para muitos de nós: a velhice parece sempre chegar de surpresa.
Talvez porque, durante boa parte da vida, aprendemos a enxergar o envelhecimento como algo que acontece com os outros. A filósofa Simone de Beauvoir resumiu esse fenômeno em uma frase célebre: “Velho é sempre o outro.” O resultado é um comportamento quase ingênuo diante da passagem do tempo. Falamos de aposentadoria, rugas e cabelos brancos, mas evitamos falar de velhice. Como se nomeá-la fosse antecipá-la.
Isso ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais comum entre brasileiros de 55, 60 ou 65 anos. Muitos já convivem com condições crônicas de saúde, já estão em uma fase da vida em que estratégias preventivas se tornam fundamentais, mas rejeitam qualquer identificação com a palavra “idoso”. Não se veem nesse lugar. E, por não se verem, frequentemente deixam de buscar informações, cuidados e acompanhamentos que poderiam contribuir para uma vida mais saudável e independente nas próximas décadas.
Não se trata de defender rótulos. Ninguém precisa adotar uma identidade baseada exclusivamente na idade. O problema surge quando a recusa em reconhecer o próprio envelhecimento impede o planejamento do futuro. Quando a velhice é vista como um território distante, ela deixa de ser assunto nosso. E aquilo que não é assunto nosso dificilmente recebe atenção.
É nesse ponto que o etarismo se revela. O preconceito contra a idade não afeta apenas os mais velhos; ele também influencia a forma como todos nós nos relacionamos com nosso próprio envelhecimento. Se associamos a velhice apenas à doença, à dependência ou à perda, é natural que tentemos nos afastar dela o máximo possível. O paradoxo é que esse afastamento dificulta justamente a construção de uma velhice melhor.
Não por acaso, a Organização Pan-Americana da Saúde aponta como primeiro passo para o envelhecimento saudável a transformação da forma como pensamos, sentimos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento. Antes mesmo de medicamentos, exames ou tecnologias, é necessário mudar a narrativa.
Essa mudança tem consequências concretas. Pessoas que compreendem o envelhecimento como parte da vida tendem a aderir mais às medidas preventivas, cuidar melhor dos fatores de risco cardiovasculares, manter vacinação atualizada, preservar vínculos sociais, praticar atividade física e buscar avaliações de saúde voltadas à manutenção da autonomia e da funcionalidade. Não porque se sintam velhas, mas porque entendem que envelhecer é um processo contínuo.
Já está provado que viver mais, por si só, não basta. O desafio contemporâneo é acrescentar vida aos anos, e não apenas anos à vida. Para isso, precisamos abandonar a ideia de que a velhice começa em uma data específica ou em um aniversário marcante. Ela começa muito antes. Na verdade, começa no momento em que nascemos.
Falar sobre envelhecimento é falar sobre projetos, direitos, prevenção, autonomia, liberdade e qualidade de vida. É preparar o terreno para continuar sendo quem somos ao longo do tempo.
E isso não se faz por meio de eufemismos ou escondendo o tema debaixo do tapete. Faz-se nomeando aquilo que sentimos, os medos que carregamos e os estereótipos que aprendemos sobre o que significa ser velho. Não para criar um novo padrão de envelhecimento, mas para ampliar as possibilidades de viver essa etapa da maneira que cada pessoa desejar.
Ziraldo disse que se sentiu velho aos 90 anos. Mas todos nós temos a responsabilidade de planejar uma boa velhice muito antes disso. Porque envelhecer não é um evento que acontece de repente. É o mais longo processo da vida.






