
Uma intervenção que combinou atividade física, alimentação baseada na dieta mediterrânea, treino cognitivo, conexão social e controle de fatores de risco cardiovascular melhorou a cognição de idosos com maior risco de demência, aponta um estudo latino-americano apresentado nesta segunda, 13, na conferência internacional da Alzheimer’s Association, em Londres, e publicado na renomada revista científica The Lancet.
A influência de intervenções no estilo de vida sobre o desempenho cerebral já havia sido avaliada em outras pesquisas na Europa e nos Estados Unidos, mas, pela primeira vez, essas intervenções foram adaptadas para a cultura latino-americana. O estudo, chamado de LatAm-FINGERS, foi realizado em 11 países da região, incluindo o Brasil, e contou com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Uma das principais inovações do estudo foi demonstrar que mesmo intervenções adaptadas à cultura local podem trazer benefícios cognitivos. Entre as adaptações feitas estão a inclusão de aulas de dança de ritmos latinos no pilar de exercícios aeróbicos e a substituição das frutas vermelhas (presentes na dieta mediterrânea, mas pouco acessíveis na América Latina) por frutas tropicais com pouco açúcar, como melão.
Para realizar a pesquisa, os cientistas recrutaram 1.065 idosos com idades entre 60 e 77 anos com risco aumentado de demência e desempenho cognitivo um pouco abaixo do ideal. Os participantes foram divididos em dois grupos. O primeiro participou durante dois anos de um programa estruturado de intervenções que incluía:
- Exercícios físicos supervisionados quatro vezes por semana com sessões que duravam cerca de 55 minutos e contemplavam exercícios aeróbicos, de resistência, de coordenação e equilíbrio, além de aquecimento;
- Aconselhamento nutricional baseado na dieta MIND, que combina elementos das dietas mediterrânea e DASH, voltada à saúde cerebral. Ela tem como base alimentos como verduras, frutas vermelhas, grãos integrais, leguminosas, castanhas, peixes e azeite, e recomenda limitar o consumo de sal e gorduras. O aconselhamento incluiu duas consultas individualizadas por ano com um nutricionista, contatos regulares das profissionais e registros alimentares semanais por parte dos participantes;
- Sessões de 25 minutos de treinamento cognitivo, quatro vezes por semana,que trabalhavam atenção, memória, velocidade de processamento e funções executivas (capacidade de planejar, seguir instruções e executar múltiplas tarefas, por exemplo). O treino foi feito por meio de uma plataforma digital e seu nível de dificuldade era ajustado automaticamente de acordo com o desempenho do participante;
- Estímulo à interação social por meio de 38 encontros presenciais em grupos de dez idosos cada, conduzidos por um profissional;
- Controle dos fatores de risco cardiovascular, realizado por meio do monitoramento, a cada seis meses, da pressão arterial, peso, circunferência da cintura, glicemia de jejum, entre outros indicadores. A cada sessão de monitoramento, os idosos recebiam informações sobre as metas e controle desses indicadores.
Já o segundo grupo de idosos recebeu apenas orientações sobre um estilo de vida saudável. Ao longo dos dois anos de monitoramento, eles participaram de quatro encontros em grupo, nos quais receberam recomendações orais e escritas sobre alimentação, atividade física, estímulo cognitivo, interação social e controle dos fatores de risco cardiovascular.
Após dois anos, ambos os grupos tiveram algum grau de evolução cognitiva em testes feitos antes e depois das intervenções, mas os participantes submetidos ao programa estruturado tiveram melhora 55% maior na cognição global do que aqueles que receberam orientações mais flexíveis.
Os benefícios foram observados na memória episódica (capacidade de relembrar acontecimentos ou experiências vividas), nas funções executivas e na velocidade de processamento cerebral.
Protocolo adaptado à cultura local
Um dos principais objetivos do estudo, além de medir a eficácia dessas intervenções na melhora cognitiva, foi avaliar se o protocolo seria benéfico mesmo se fosse adaptado à cultura local. Isso porque o LatAm-FINGERS foi inspirado no estudo finlandês FINGER, publicado em 2015, que criou esse protocolo de intervenções baseado nas cinco frentes descritas acima e alcançou resultados positivos. O programa original, no entanto, dificilmente poderia ser reproduzido de forma idêntica em outras culturas e contextos socioeconômicos.
Por isso, houve uma força-tarefa de dezenas de pesquisadores latino-americanos para adaptar alguns componentes da intervenção ao contexto local.
Na atividade física, por exemplo, modalidades mais próximas da cultura do continente foram incorporadas ao programa de exercícios aeróbicos, como contou ao Pulsa a geriatra Claudia Suemoto, professora e pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP e uma das autoras da pesquisa.
“Alguns participantes participaram de atividades de danças como zumba ou algum ritmo mais latino, o que não é comum ver em intervenções de outros países, mas que é muito específico da cultura latino-americana“, diz.
A alimentação, afirma a especialista, foi outro desafio importante não só pela necessidade de adaptação da dieta mediterrânea para um contexto de clima tropical, mas também porque há diferenças na cultura gastronômica entre os próprios países da América Latina. “A comida é totalmente diferente no México, no Brasil, na Argentina e no Uruguai”, diz. O custo e a baixa disponibilidade de alguns alimentos também exigiram adaptações.
Além da troca de frutas vermelhas por itens de menor índice glicêmico, outros alimentos foram substituídos por opções mais acessíveis e culturalmente aceitas. O amendoim, por exemplo, apareceu como opção no lugar de oleaginosas mais caras, como algumas castanhas. No México, o guacamole foi estimulado como uma fonte de gorduras saudáveis no lugar do azeite de oliva, que tem um custo mais elevado.
O treinamento cognitivo também precisou passar por ajustes. A intervenção previa quatro sessões semanais de exercícios por meio de uma plataforma online que, originalmente, deveria ser acessada pelos idosos de forma independente em casa.
“Mas a gente teve um problema muito grande, que foi a falta de letramento digital. Então tivemos que adaptar para, em vez de fazer o treinamento em casa, fazer no centro de pesquisa depois da sessão de exercícios físicos. A gente teve que ensinar os idosos a mexerem no sistema e, depois de algum tempo, eles caminharam sozinhos.”
Mesmo com as adaptações, diz Claudia, o estudo conseguiu demonstrar melhora da cognição até superior à observada no estudo FINGER e em uma pesquisa similar realizada nos Estados Unidos (U.S. Pointer).
Estratégia contra a demência?
Embora o estudo não permita afirmar categoricamente que essas intervenções reduzam a ocorrência de demência (para isso, são necessários estudos com período maior de acompanhamento), os pesquisadores acreditam que esse pode ser um caminho a ser testado para prevenir a condição ou ao menos adiar o seu aparecimento.
Estudos anteriores já mostraram que controlar alguns fatores de risco relacionados à saúde cardiovascular e manter uma boa reserva cognitiva (estimulada principalmente pela escolaridade e estímulo cerebral) poderiam evitar quase metade dos casos de demência.
No estudo publicado nesta segunda-feira, os pesquisadores explicam que o impacto dessas intervenções na saúde cerebral é provavelmente multifatorial.
“A atividade física pode melhorar a função cerebrovascular e a sinalização neurotrófica (comunicação entre as células nervosas), enquanto melhorias na alimentação e o monitoramento dos fatores de risco vascular podem favorecer o controle cardiometabólico. O treinamento cognitivo e a interação social podem contribuir para a plasticidade neural e a reserva cognitiva. Em conjunto, esses componentes podem produzir efeitos sinérgicos sobre a saúde cerebral”, escreveram os autores.
Para Claudia, mesmo com o crescente volume de evidências científicas de que intervenções estruturadas no estilo de vida podem melhorar a cognição e reduzir o risco de demência, ainda é um desafio ver essas medidas implementadas como políticas públicas.
“Na Finlândia, onde eles têm dados dessas intervenções desde 2015, ainda estão tentando implementar de forma mais efetiva como política pública. A Universidade de São Paulo acabou de ganhar um financiamento adicional da Alzheimer’s Association para começar a pensar em implementação em um grupo de idosos ligados à USP”, conta.
Ela diz que um dos caminhos seria tentar implantar uma versão simplificada do programa de intervenções em serviços públicos já frequentados pelos idosos, como centros-dia ou unidades de saúde. “E aí fazer com que os idosos de alto risco para demência venham receber essa intervenção.”
Segundo Claudia, além do financiamento para o estudo que avaliará a implementação do protocolo, a Alzheimer’s Association aprovou uma verba extra para os cientistas do grupo LatAm-FINGERS seguirem acompanhando os mil idosos latino-americanos por mais quatro anos.
“A gente não está fornecendo mais as intervenções, mas vamos seguir acompanhando para entender quantos participantes continuam fazendo e quão permanentes são esses benefícios.”
Fonte: Estadão





