
O Brasil envelhece diante dos nossos olhos e o mercado de trabalho é um dos espaços onde essa transformação aparece de forma mais evidente. Há uma década, a presença da população com 60 anos ou mais ainda era tratada como uma questão periférica no debate econômico. Hoje, tornou-se elemento central para compreender o país, especialmente em um ano de eleições presidenciais.
Levantamento da Nexus, com base em dados do IBGE, mostra que a geração 60+, ou geração prateada, cresceu 37% nos últimos dez anos, passando de 25,7 milhões para 35,2 milhões de brasileiros. No mesmo período, a população total aumentou apenas 4,7%. Mais revelador ainda é que o número de idosos ocupados no mercado de trabalho cresceu 53%, alcançando 8,7 milhões de pessoas. O país não apenas envelhece: envelhece trabalhando.
Essa mudança transforma a economia e também a lógica político-eleitoral. O Brasil de 2026 será disputado em uma sociedade mais velha, pressionada por desafios previdenciários e cada vez mais dependente da permanência da geração 60+ na atividade econômica. O envelhecimento deixa de ser apenas uma pauta social para se tornar um tema eleitoral.
Os indicadores, porém, revelam um paradoxo. A taxa de desemprego entre trabalhadores com 60 anos ou mais caiu para 2,2% no quarto trimestre de 2025, a menor da série histórica. Mas isso não significa melhores condições de trabalho. O mesmo levantamento mostra que 53% dessa população atuam na informalidade, ante 38% da média nacional. Em muitos casos, o idoso permanece ativo porque precisa complementar a renda da aposentadoria, e não por escolha.
Esse talvez seja o principal retrato do envelhecimento brasileiro: uma geração que continua trabalhando sobretudo por necessidade econômica. Enquanto muitos jovens ainda conseguem adiar a entrada definitiva no mercado em busca de qualificação, trabalhadores 60+ frequentemente migram para ocupações precárias, autônomas e sem proteção trabalhista.
Os rendimentos reforçam esse cenário. Entre 2016 e 2025, a renda média real dos jovens cresceu 15,4%, enquanto a dos trabalhadores da geração prateada caiu 4,2%. Em outras palavras, o Brasil envelhece trabalhando mais e ganhando relativamente menos.
Esse contexto tende a pressionar o debate eleitoral de 2026. Durante décadas, campanhas presidenciais concentraram suas propostas na juventude, no primeiro emprego e na ascensão econômica das novas gerações. Essa agenda continuará importante, mas já não explica sozinha o país real.
O eleitorado também envelheceu. Dados da Nexus, com base no Tribunal Superior Eleitoral, mostram que os eleitores com 60 anos ou mais cresceram 74% entre 2010 e 2026, enquanto o eleitorado total avançou apenas 15%. Hoje, cerca de um em cada quatro votos pertence à geração prateada. Em eleições cada vez mais polarizadas e decididas por margens estreitas, compreender as demandas desse grupo deixa de ser estratégia segmentada e passa a ser condição para qualquer projeto político competitivo.
Isso significa ampliar o debate para além da Previdência. Empregabilidade sênior, requalificação profissional, combate ao etarismo, adaptação dos ambientes de trabalho, inclusão digital, políticas de cuidado e novos modelos de proteção social tendem a ocupar espaço crescente na agenda pública.
O envelhecimento da força de trabalho não representa uma transição passageira, mas uma característica permanente da economia brasileira. Em um país onde a população jovem cresce cada vez menos, a sustentabilidade econômica dependerá da capacidade de manter trabalhadores maduros produtivos, qualificados e protegidos. O espelho do Brasil está mais prateado —e compreender essa transformação será decisivo para quem pretende governar o país nos próximos anos.
Fonte: Folha de S. Paulo





