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Aumento da população idosa no Brasil e oferta de residências seniores enfrentam desafios

A figura do gerontólogo é fundamental para a gestão de uma Ilpi – Foto: Mircea Iancu / Pixabay

Quando uma família decide colocar um familiar em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (Ilpi), podem surgir alguns questionamentos das causas ou acusações de abandono. As Ilpis, que também podem ser chamadas de residenciais para pessoas idosas ou de residenciais seniores, têm o objetivo de acolher e garantir suporte às necessidades de pessoas com mais de 60 anos. Esses locais oferecem estruturas voltadas a esse público e ao seu cuidado, ao contrário do que pessoas que desconhecem os papéis das ILPIs acreditam.

A professora Rosa Sato Chubaci, do curso de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, explica que essas instituições são destinadas a idosos que perderam a autonomia ou parte dela. “É o local onde as pessoas idosas com mais de 60 anos passam a residir por conta da necessidade de cuidado, por conta da necessidade de uma alimentação adequada, de um local onde elas terão suas necessidades atendidas”, explica.

Não abandono e cuidado

Uma das preocupações das Ilpis é o abandono. Pessoas idosas que vão para essa instituição, por decisão própria ou não, precisam das visitas. “Hoje, a Ilpi é um local em que o cuidado da família, dos parentes, continua lá dentro, ou seja, a pessoa idosa passa a ter visitas para que possam ter a continuidade do cuidado. É isso o que a gente pede para os gestores dessas Ilpis, ficarem atentos à visita que as pessoas recebem”.

Deixar de fazer visitas às pessoas idosas pode se configurar como abandono e a professora ainda alerta que “aquele que não receber [as visitas] é necessário que se vá atrás dessas pessoas [dos familiares]. Porque não se pode, é crime abandonar o idoso. Mesmo que seja dentro de uma instituição. As famílias precisam estar conscientes disso”.

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o total de pessoas com 65 anos ou mais chegou a 10,9% da população no Brasil. A professora Helena Akemi Wada Watanabe, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, comenta que o sistema de acolhimento de pessoas idosas não está preparado para lidar com o envelhecimento acelerado da população. “A disponibilidade de serviços de cuidados de longa duração, não só de Ilpis, mas também de centros-dia e de cuidados domiciliares é insuficiente”, diz a pesquisadora. Helena adiciona que tanto as Ilpis públicas quanto as privadas (com ou sem fins lucrativos) possuem filas.

O aumento populacional, somado à falta de oferta das Ilpis públicas ou conveniadas com o poder público, fez com que as residências seniores aumentassem. Helena afirma que “historicamente os serviços de acolhimento no Brasil estavam ligados à benemerência, por isso, há ainda muitas Ilpis privadas filantrópicas, mas aqui, no Estado de São Paulo, a proporção de Ilpis privadas ultrapassou as filantrópicas, que têm grandes dificuldades em se manter economicamente.

Já para a professora Marilia Cristina Prado Louvison, também do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, como a ampliação da Ilpis “tem mais fortemente a lógica de mercado, a oferta de equipamentos públicos ainda é muito incipiente junto ao SUAS (Sistema Único de Assistência Social), em articulação com o SUS. Nesse sentido, é fundamental a regulação da oferta de serviços no sentido de garantir a qualidade e a preservação da autonomia e dignidade da pessoa idosa, evitando processos de institucionalização que levem à perda de direitos”.

A fiscalização e equipe

O principal órgão responsável pelas Ilpis é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A definição do termo e a regulação dos padrões mínimos ocorrem através da Resolução da Diretoria Colegiada número 502 de 2021 (RDC 502/2021). Entre as definições, estão as regras de acessibilidade, definição de áreas de convivência e a exigência de protocolos de atenção à saúde. Outros órgãos, como o Conselho Regional de Enfermagem e os Conselhos Municipais da Pessoa Idosa, podem realizar visitas e inspeções.

Na RDC 502/2021, as Ilpis são consideradas serviços sociais. Essa definição implica que não é obrigatória a presença de profissionais da saúde, mas, segundo Helena, “a grande maioria delas conta com alguns profissionais da área de enfermagem, médicos e fisioterapeutas, por exemplo. Os residentes das Ilpis devem contar com a rede do SUS, como qualquer outro cidadão: passar em consultas, receber medicamentos, fraldas e nutrição enteral”.

Dentro das Ilpis, os profissionais que trabalham fazem parte de uma equipe multidisciplinar que pode ser composta de médicos, enfermeiros e gerontólogos – estes últimos responsáveis por entender as necessidades da pessoa idosa e coordenar o grupo. Porém, a atividade feita por voluntários também é essencial. “É claro que nós temos voluntários, não vou dizer que não tenha, mas não temos o número suficiente de voluntários para atender a essas instituições. A pessoa pode ser voluntária até em uma instituição particular, principalmente a pública, que necessita bastante”, destaca a professora Rosa Chubaci. Para ela, o Brasil não tem o costume de voluntariado.

“Acho que a população precisa criar o hábito de fazer um voluntariado. Às vezes a pessoa fala assim: ‘Ah, mas eu não sei nada. Como que eu posso ser voluntária?’. Conversando, contando, lendo o livro para pessoas, pintando junto, leva desenhos para pintar com essas pessoas” (Rosa Sato Chubaci)

“Pessoa idosa”, não “idoso” nem “criança”

Rosa destaca a forma com que as pessoas tratam indivíduos com mais de 60 anos. Se referir a essas pessoas por somente “idoso” é, para a professora, uma forma de discriminação, porque “a pessoa vem antes de ser idosa”, ou seja, a maneira mais adequada é “pessoa idosa”.

Outro problema no tratamento dos indivíduos dessa faixa etária é a infantilização. “Sabe, quando as pessoas, às vezes, não é por maldade, é por carinho, fala que o idoso volta a ser criança”. Tratá-los dessa forma é errado, porque desperta o conhecimento de mundo adquirido pela pessoa ao longo da vida, “independentemente da sua classe social, e ele tem uma experiência que é incomparável à de uma criança.”

Usar palavras no diminutivo é a principal aparência da infantilização da velhice. “Por exemplo, ‘vamos colocar o sapatinho?’, ‘Olha, eu vou dar uma comidinha gostosa’, espera aí, é comida gostosa, não é comidinha. ‘Vamos colocar uma meinha?’ Não, ‘vamos colocar uma meia’. Então as pessoas precisam estar conscientes disso para tratar o idoso, aquela pessoa que realmente viveu uma vida inteira, às vezes está com 80, 90, 100 anos ou mais e tem uma experiência que é, assim, riquíssima.”

Por Fernando Silvestre – Jornal USP