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Governo Lula dobra gastos e paga R$ 21 mi em anúncios no Instagram e Facebook para divulgar entregas

Foto: Wallison Breno/PR

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva gastou até meados de maio R$ 21 milhões em anúncios no Instagram e no Facebook para divulgar investimentos em Estados e programas que possam servir de chamariz em ano eleitoral.

O valor é quase o dobro dos R$ 11,45 milhões desembolsados no mesmo período de 2025. Procurada, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) ainda não se manifestou.

Os dados constam da biblioteca de anúncios da Meta, dona das duas redes sociais. De acordo com o calendário eleitoral estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral, o governo tem até 4 de julho para fazer publicidades de programas, obras, serviços e campanhas.

A partir dessa data, só é permitida a propaganda de produtos e serviços com concorrência no mercado, exceto no caso de necessidade pública urgente reconhecida pela Justiça Eleitoral.

Pouco mais de 20% do valor desembolsado em postagens nas redes sociais da Meta até 19 de maio foi destinado à divulgação de entregas realizadas pelo governo federal em Estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, que possuem os maiores colégios eleitorais do País.

Houve também divulgação de ações no Rio Grande do Sul, atingido em 2024 por fortes chuvas que se transformaram no maior desastre natural do Estado, no Ceará e em Pernambuco, entre outros. O governo também divulgou iniciativas de apoio às vitimas das tragédias em enchentes no interior de Minas Gerais.

O segundo maior gasto, de R$ 3,3 milhões, foi usado para divulgar os investimentos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), uma das principais vitrines do terceiro mandato de Lula. Foram feitas postagens sobre as obras em Santa Catarina, Maranhão, Pará, São Paulo, Amazonas, Acre e Alagoas, entre outros.

O governo gastou R$ 2,85 milhões para turbinar a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, medida que já está em vigor e com a qual Lula pretende atrair esse segmento.

A mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que mais de metade dos eleitores que ganham de R$ 2 mil a R$ 10 mil mensais desaprova a gestão do petista.

O fim da escala 6×1, principal bandeira eleitoral do presidente, também aparece entre na lista de maiores desembolsos desses primeiros cinco meses do ano. Foram gastos até agora aproximadamente R$ 2,1 milhões em anúncios sobre o tema, ou cerca de 10% do total.

“Essa é a proposta: menos trabalho, mesmo salário, mais vida. E ela já foi enviada pelo Governo do Brasil ao Congresso. Se for aprovada, mais de 14 milhões de brasileiros deixarão de trabalhar na escala 6×1″, diz o texto de um dos anúncios.

A medida está em análise na Câmara dos Deputados, que se prepara para votar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) diminuindo a jornada de trabalho semanal de 44 horas para 40 horas, sem redução salarial e com duas folgas.

Fechando a relação dos cinco maiores gastos estão anúncios sobre segurança pública, área que é apontada como uma das maiores vulnerabilidades do petista. O gasto somou R$ 1,5 milhão, o que responde por 7,16% do total.

Foram postagens mostrando a atuação contra o crime organizado, contra a exploração sexual de crianças e adolescentes e divulgando a ampliação de penas para crimes como furtos, roubo e golpes – o projeto sancionado por Lula é de autoria do deputado Kim Kataguiri (Missão-SP).

Outra das medidas lançadas neste terceiro mandato e que foram difundidas nas redes sociais foi a mudança nas regras para tirar a Carteira Nacional de Habilitação – o curso teórico na autoescola deixou de ser obrigatório. O governo gastou R$ 931.900 para divulgar a alteração.

“Com a CNH do Brasil, você escolhe como aprender, mas a segurança permanece inegociável. Afinal, todos os caminhos garantem um trânsito seguro para todos”, diz uma das postagens sobre o tema. Outra delas destaca a renovação automática e gratuita da CNH.

No caso do Desenrola, medida de renegociação de dívidas com a qual o governo busca combater o endividamento da população, os anúncios somaram R$ 2,758 milhões. “Tenha até 90% de desconto nas suas dívidas. Renegocie com o Novo Desenrola do Governo do Brasil. Procure seu banco”, indica uma postagem.

Por outro lado, a publicidade sobre as ações para contornar o impacto sobre combustíveis causado pelo Guerra do Irã alcançou R$ 5,7 milhões.

“Te contaram que o valor do combustível vai explodir? Então deixa que a gente te conta o que o Governo do Brasil está fazendo para você não pagar nada a mais”, indica o texto, que também buscou rebater críticas de bolsonaristas ao aumento dos preços.

Outra postagem pedia para motoristas denunciarem aumentos expressivos dos combustíveis nos postos, afirmando que poderia se tratar de prática abusiva.

Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o aumento de gastos responde a uma lógica de valorização das entregas.

“Deveria haver uma fiscalização mais intensa. Não faz sentido estourar gasto de publicidade em ano eleitoral e depois verificar que o comportamento é outro nos anos anteriores”, afirma.

“Fica evidente que a política obedece esse tipo de calendário. Ideal que houvesse uma política de comunicação pública contínua em qualquer governo. Não precisasse fazer uso de artifício de última hora, pensando justamente em como isso entra na agenda eleitoral.”

2025 turbinado

No ano passado, o gasto total do governo em anúncios no Instagram e no Facebook somou aproximadamente R$ 39,1 milhões. O maior desembolso foi na campanha sobre a isenção de imposto de renda para quem recebe menos de R$ 5 mil, que foi aprovado no ano passado.

O governo também reforçou anúncios para divulgar iniciativas no campo da segurança pública e para defender a ideia de soberania nacional. Em abril do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas de 50% aos produtos brasileiros e levantou questionamentos comerciais sobre o Pix.

“O governo brasileiro centrou esforços em defender o Pix. É do Brasil, é dos brasileiros e vai continuar como é. Seguimos buscando todos os canais e não vamos desistir de negociar com os Estados Unidos para evitar a tarifa de 50% anunciada sobre nossos produtos. É legítimo e desejável que países soberanos debatam questões comerciais. Mas se o problema for o Pix… No way”, disse o governo em publicação em julho ano passado.

Fonte: Estadão