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Manter a vida social ativa fortalece a saúde e pode ajudar a prevenir doenças, apontam especialistas

Foto: Unsplash

O passar dos anos, a aposentadoria, a saída dos filhos de casa e as perdas naturais do envelhecimento podem deixar a rotina de muitos idosos mais solitária. Especialistas alertam, no entanto, que manter uma vida social ativa ultrapassa o bem-estar emocional: o convívio frequente pode fortalecer a saúde física e mental, além de ajudar na prevenção de doenças neurocognitivas, como a demência e o Alzheimer.

A psicóloga Ana Teresa Mendes explica que os impactos de uma vida social ativa são sistêmicos e atingem diferentes aspectos da saúde do idoso. Segundo ela, do ponto de vista emocional, o sentimento de pertencimento ajuda a reduzir os níveis de cortisol, conhecido como hormônio do estresse, diminuindo sintomas de ansiedade e depressão.

Ela destaca que a convivência social contribui para a saúde física, já que estimula deslocamentos, caminhadas e encontros, ajudando no combate ao sedentarismo e favorecendo a autonomia funcional. Na parte cognitiva, as conversas e trocas diárias funcionam como estímulos mentais importantes.

— O cérebro social é o que nos mantém conectados à realidade. Interagir exige atenção, memória recente, linguagem e empatia — afirma a psicóloga.

A especialista ressalta que a manutenção dos vínculos sociais pode ajudar a retardar o declínio cognitivo e o surgimento de doenças neurodegenerativas. Segundo ela, as relações sociais fortalecem a chamada reserva cognitiva, capacidade do cérebro de criar caminhos alternativos diante de danos nas conexões neurais.

— Manter conversas estimulantes, rir, debater e até lidar com pequenos conflitos sociais gera novas sinapses. Embora o convívio social não anule a carga genética de doenças como o Alzheimer, ele funciona como um poderoso amortecedor — explica.

A geriatra Paula Cristina Moreira reforça que o convívio social é um dos pilares do envelhecimento saudável. Segundo ela, pessoas idosas socialmente ativas tendem a apresentar maior motivação para o autocuidado, melhor adesão ao acompanhamento médico e maior engajamento na busca por cuidados quando necessário.

— A preservação do senso de propósito, pertencimento e utilidade social constitui um elemento essencial para a qualidade de vida, dignidade e envelhecimento bem-sucedido — afirma.

A médica alerta que o isolamento social vai muito além da sensação de solidão e pode trazer impactos diretos para a saúde física e mental.

— Estudos recentes mostram que a solidão é um importante fator de risco para declínio cognitivo e demência na velhice. A interação social funciona como estímulo cognitivo e fator protetor, enquanto a exclusão social reforça o risco de adoecimento — explica.

Ela destaca que alguns sinais podem indicar sofrimento emocional relacionado à solidão, como retraimento social, abandono de atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite, irritabilidade e descuido com o autocuidado.

— Muitas vezes, uma pergunta simples pode revelar mais do que exames: “Com quem o(a) senhor(a) tem conversado regularmente?” — afirma.

A psicóloga lembra que não existe uma frequência ideal de interação social válida para todos os idosos. Para ela, mais importante do que a quantidade de contatos é a qualidade das relações e a sensação de pertencimento.

— Ter um compromisso fixo semanal, como um grupo de convivência, combinado a pequenos contatos diários de qualidade, já pode ajudar a manter os marcadores de saúde mental estabilizados. O importante é que o idoso perceba que sua presença importa — diz.

Paula Cristina Moreira também orienta que os idosos procurem atividades que favoreçam vínculos e participação ativa na rotina.

— Participar de grupos, praticar exercícios, cultivar hobbies, manter vínculos intergeracionais e usar a tecnologia para fortalecer conexões sociais são estratégias importantes para preservar a autonomia e a qualidade de vida — afirma.

A representante comercial Sonia Barbosa, de 72 anos, sentiu na prática os impactos do isolamento durante a pandemia da Covid-19. Morando sozinha, ela conta que passou por um período de solidão e viu sua rotina social diminuir drasticamente.

— Depois da pandemia, minha vida social ficou mais tímida. Durante esse tempo, me senti sozinha, já que moro só — relembra.

Hoje, Sonia diz que conseguiu reconstruir a rotina de convivência. As amizades feitas na academia e os encontros na igreja passaram a fazer parte do dia a dia.

— Atualmente, tenho muitos amigos da academia e da igreja. Sou uma pessoa muito focada nos relacionamentos e gosto bastante desse convívio — conta.

Para ela, cultivar amizades e manter contato frequente com outras pessoas faz diferença direta na qualidade de vida durante o envelhecimento.

— O conselho que eu dou é que as pessoas busquem manter o convívio social, ainda mais hoje, quando existem tantas possibilidades — conclui.

Fonte: Extra