
Envelhecer em uma sociedade que teme a velhice significa, muitas vezes, perder o direito de decidir sobre a própria vida antes mesmo de perder capacidades. Há filhos que, na tentativa sincera de proteger seus pais, começam, pouco a pouco, a ocupar espaços que não lhes foram pedidos. Primeiro, ajudam no banco. Depois, assumem as compras, controlam os horários dos remédios, opinam sobre amizades, restringem saídas, fiscalizam escolhas. Algumas dessas intervenções podem ser necessárias, especialmente diante de limitações funcionais ou cognitivas. O problema começa quando o cuidado deixa de ser construído com a pessoa idosa e passa a ser imposto a ela.
Recentemente, ouvi o relato de uma pessoa idosa que dizia se sentir sufocada pelo excesso de zelo do filho. Não havia demência, não havia perda de autonomia importante. Havia apenas um filho tomado pelo medo de que algo ruim acontecesse. O resultado foi paradoxal: quanto mais ele tentava proteger, mais fragilizava a relação entre os dois. Ela já não se sentia vista como adulta, mas como alguém permanentemente incapaz.
Velhice não é infância
Talvez uma das experiências mais violentas para uma pessoa idosa seja justamente deixar de ser reconhecida como sujeito da própria história. Existe algo profundamente doloroso em ver aquele a quem você ensinou a andar, falar e viver passar a lhe dar ordens, proibir escolhas ou decidir por você sem levar em conta as suas vontades. A velhice não transforma alguém em criança. Fragilidade não é sinônimo de incapacidade. E cuidado não pode significar silenciamento.
Isso não quer dizer abandonar ou negligenciar. Há situações em que a ajuda é indispensável e salva vidas. O desafio está em encontrar o limite entre apoiar e substituir; entre proteger e controlar. Porque o excesso de cuidado também adoece. Ele desgasta vínculos, aumenta o sentimento de impotência, favorece o isolamento e piora a saúde mental da pessoa idosa. E, muitas vezes, também esgota emocionalmente o cuidador, que passa a viver em estado permanente de vigilância e culpa.
Como garantir o cuidado ideal
Por isso, talvez o primeiro passo para um cuidado verdadeiramente ético seja aprender a ouvir. Ouvir o que aquela pessoa considera importante. Ouvir quais riscos ela aceita correr. Ouvir o que ela deseja preservar em sua rotina. Nem sempre autonomia significa independência absoluta. Muitas pessoas idosas precisam de ajuda em algumas atividades e, ainda assim, mantêm plena capacidade de decidir sobre sua própria vida. O cuidado centrado na pessoa exige justamente isso: reconhecer que a protagonista continua sendo ela.
Também precisamos romper o silêncio que frequentemente acompanha a velhice. Há famílias que falam sobre a pessoa idosa, mas não com ela. Médicos que explicam diagnósticos aos filhos e ignoram o paciente. Profissionais que infantilizam quem envelheceu. Pequenos gestos que parecem banais, mas carregam enorme violência simbólica.
Lembro da indignação da minha avó, uma mulher lúcida, independente e ativa aos 93 anos, após sair de uma consulta com um ortopedista. Revoltada, contou que o médico quase não lhe dirigiu a palavra durante o atendimento. Falava apenas com sua cuidadora, como se ela não estivesse ali. Como se tivesse deixado de existir como sujeito. Sua revolta era menos sobre o quadril recém-operado e mais sobre o apagamento.
Talvez esse seja o alerta mais importante: envelhecer não pode significar perder a voz. Que a gente aprenda a cuidar sem invadir, proteger sem aprisionar e ajudar sem apagar quem está diante de nós. E que, diante de uma pessoa idosa, tenhamos a humildade de ouvir mais e falar menos.
Por Milton Crenitte – Médico geriatra, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em longevidade
Fonte: Estadão





