
Vivemos hiperestimulados. Nossa dependência do celular, a vontade de acompanhar os últimos destaques do cinema, os concertos de nossas bandas favoritas, a busca por um bom corte de cabelo, uma alimentação equilibrada. Preencheria com facilidade todo este espaço listando apenas os “bons” estímulos. Ok, admito: a dependência do celular não se enquadra nessa categoria.
Durante meus dias na Índia, nossa mestra e anfitriã, Zaki (@mapremzaki_), convidou-nos a vivenciar um dia de silêncio e de jejum. A ideia foi mais apavorante do que a prática, e por isso achei que valia lançar o desafio por aqui também.
Como funciona? Da meia-noite de um dia até a meia-noite do dia seguinte, permanecemos longe do celular e qualquer tela e ingerimos somente água morna. O mínimo estipulado pelo médico foi de 2,5 litros.
Meus preparativos foram simples. Avisei ao meu marido e ao grupo da família que estaria offline. Por segurança, combinei com ele que, em caso de emergência com meus filhos, pai ou outra “hecatombe”, ele poderia acionar a Zaki, que saberia como me resgatar. No grupo da família, reiterei que ele seria o canal de contato se algo urgente ocorresse.
O bebedouro da clínica oferecia água quente. No quarto, calculei quantos copos cabiam em uma garrafa de 1 litro — para os interessados, são cinco copos — e fiz as contas de quanto deveria beber ao longo do dia. Meditei antes de iniciar, seguindo a técnica de healing da minha professora Isis Pristed, e mergulhei nesse processo de limpeza. Descansei e refleti. Foi um dia suave, com poucos pensamentos sofridos ou preocupações.
Mantive um caderno para registrar ideias — e elas vieram — e para marcar cada copo d’água consumido, garantindo que não beberia menos que o indicado. Uma dica importante: no dia seguinte ao jejum, comece com um ovo mexido simples e uma fruta com chia ou aveia. Evite sucos, café com leite e pães logo de início. Depois, retome sua vida.
A ausência de estímulos externos funciona como um espelho retrovisor para nosso mundo interior: de repente, você enxerga tudo aquilo que estava deixando para trás na pressa do cotidiano. Ao remover ruídos e a obrigatoriedade de responder ao mundo, percebi que grande parte da ansiedade é alimentada por uma urgência que não nos pertence. No silêncio, a percepção do tempo muda. As horas, que antes pareciam voar entre um scroll e outro nas redes sociais, passaram a fluir com uma cadência generosa, permitindo que eu habitasse o meu próprio corpo de forma mais consciente. A água morna, longe de ser apenas um meio de hidratação, tornou-se um ritual de purificação que mantinha o foco no presente, lembrando-me de que o essencial é quase sempre algo simples.
Nesse vazio voluntário, o caderno tornou-se meu único confidente e uma ferramenta de descarga criativa. É fascinante notar como a mente, quando privada da dieta digital constante, começa a produzir seus próprios “conteúdos” de maneira mais autêntica e conectada com a intuição. O silêncio não é um vácuo, mas sim um solo fértil. Aprendi que não precisamos ir à Índia para encontrar esse espaço, embora a atmosfera de lá ajude. Precisamos apenas da coragem de fechar as janelas do mundo externo para que as internas possam, finalmente, se abrir.
Ao concluir o ciclo, a leveza transcendeu o aspecto físico. O jejum limpa o organismo, mas a “desintoxicação mental” é um prêmio real. Ao morder a primeira fruta no dia seguinte, os sabores pareciam mais intensos e a gratidão pelo alimento era genuína, não apenas automática. Retomar a rotina após um hiato desses nos confere um novo filtro: passamos a selecionar melhor o que merece a nossa atenção e o que é apenas distração barulhenta. Também descobri que autocuidado significa redescobrir a capacidade de suportar a própria companhia e constatar que, nela, não falta nada.
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