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Hábito de cozinhar pode reduzir em 30% o risco de demência, aponta estudo; entenda

Cozinhar pode ser atividade protetora para o cérebro, indica pesquisa Foto: Nikish H/peopleimages.com/Adobe Stock

Cozinhar em casa pelo menos uma vez por semana pode ser um fator de proteção contra a demência em idosos, diminuindo os riscos em até 30%. É o que aponta um novo estudo publicado no periódico científico Journal of Epidemiology and Community Health (JECH).

O benefício se mostrou ainda mais expressivo entre cozinheiros iniciantes ou com poucas habilidades técnicas, com redução de até 70% no risco de desenvolver a doença. O resultado, interpretam os autores, reforça a importância dos hobbies e do aprendizado contínuo como aliados na prevenção do quadro.

Segundo o estudo, cozinhar não é um ato isolado, mas um processo que envolve planejamento de cardápios, seleção e compra de ingredientes, gestão de orçamento, atenção aos prazos de validade, técnicas motoras e o momento de servir. Esse conjunto de tarefas cria uma série de desafios para o cérebro.

Além do trabalho mental, cozinhar envolve, em certa medida, até atividade física. Ir ao supermercado, carregar compras, permanecer em pé durante o preparo e lavar a louça representam uma fonte de movimento diário, especialmente para pessoas idosas.

“O principal achado do estudo é o entendimento de que cozinhar é um pacote cognitivo completo. Envolve planejamento, memória, organização e várias outras coisas. É uma atividade que ativa múltiplas redes cerebrais”, destaca Isabela Oliveira Azevedo Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Há mais de 20 anos existem evidências de que manter hobbies, ter uma vida social ativa e realizar atividades instrumentais da vida diária — como cuidar da casa e fazer compras — estão associados a um menor risco de declínio cognitivo e demência. “O diferencial do estudo é o foco na culinária, em específico”, detalha Isabela.

Em conformidade, a neurologista Liz Rebouças, da UPA Vila Santa Catarina, gerida pelo Hospital Israelita Einstein, cita o FINGER Study, considerado um marco. A pesquisa demonstrou os benefícios de uma abordagem que combina atividade cognitiva, exercício físico, dieta equilibrada e controle de fatores vasculares na prevenção do declínio cognitivo.

Aprender coisas novas

Como mencionado, iniciantes na cozinha apresentaram os efeitos mais significativos em termos de proteção contra a demência. De acordo com o estudo, isso ocorre porque há maior esforço mental para aprender e executar tarefas. Em outras palavras, o cérebro dos chefs principiantes é mais estimulado do que o dos cozinheiros experientes, que já realizam as tarefas de forma automática.

Liz reforça que continuar aprendendo coisas novas ao longo da vida beneficia a reserva cognitiva do indivíduo, o que é positivo mesmo diante do desenvolvimento de um quadro neurodegenerativo. “Atividades cognitivamente desafiadoras aumentam a capacidade do cérebro de compensar alterações patológicas, retardando o aparecimento dos sintomas”, acrescenta.

Por isso, continuar estudando e manter hobbies é tão importante. “Diversas atividades do dia a dia podem ser protetivas contra demência, especialmente aquelas que combinam movimento físico e estímulo cognitivo”, pontua a neurologista.

“A prática regular de exercício físico e atividades de lazer, como pintura, leitura, escrita, costura, e o aprendizado de novas habilidades, estão associados à proteção cognitiva, principalmente quando envolvem múltiplas funções, como coordenação motora, planejamento e processamento visual”, reforça.

Sociabilidade

Vale destacar que cozinhar também costuma ter uma dimensão social muito forte. Muitas vezes, o preparo da refeição é feito para um parceiro, familiares e amigos.

Isabela ressalta que a interação social já está consolidada na literatura científica como protetora contra a demência. Para ela, estimular atividades do cotidiano que envolvam outras pessoas é uma estratégia eficaz para preservar a saúde cognitiva e a autonomia do idoso.

Como o estudo foi feito

A pesquisa utilizou dados do Japan Gerontological Evaluation Study (JAGES), um levantamento populacional do Japão. A amostra contou com 10.987 idosos de 65 anos ou mais, sendo 5.005 homens e 5.982 mulheres.

Os participantes foram acompanhados por seis anos, entre 2016 e 2022. A coleta de dados ocorreu por questionários enviados pelo correio, que avaliavam a frequência com que cada pessoa cozinhava, em uma escala que ia de “nunca” a “mais de cinco vezes por semana”, além do nível de habilidade culinária de cada um.

Já os casos de demência foram identificados a partir dos registros do sistema público de Seguro de Cuidados de Longa Duração (LTCI) do Japão.

Fonte: Estadão