
O uso de dispositivos digitais já não é mais um hábito restrito aos jovens. Nos últimos anos, idosos passaram a integrar de forma intensa o mundo online e, com isso, cresce também a preocupação com o uso excessivo dessas tecnologias.
Dados recentes apontam que a presença digital entre pessoas mais velhas aumentou de forma significativa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de idosos com acesso a celular saltou de 44% para 66% entre 2019 e 2023.
Para muitos recém-aposentados, as redes sociais passaram a ocupar um espaço importante no dia a dia, seja como forma de comunicação, entretenimento ou até para combater a solidão.
O problema, segundo especialistas, não está necessariamente no uso das telas, mas na forma como elas passam a interferir na rotina e nas relações pessoais. Outro ponto de atenção é a maior vulnerabilidade a golpes digitais e à desinformação, já que muitos ainda estão em processo de adaptação ao ambiente online.
Alerta para a família
A mudança de comportamento dentro de casa foi o primeiro sinal de alerta para uma família de Nova Friburgo. Dentro de casa, a mudança foi acontecendo aos poucos e quase passou despercebida no início. Um familiar relata que a idosa, de 67 anos, sempre foi muito presente na rotina da família, participava das conversas e gostava de momentos simples, como assistir televisão acompanhada ou sentar para tomar café.
“Antes, ela gostava de sentar na varanda, conversar, ver televisão com a gente. Aos poucos, foi ficando mais isolada, sempre com o celular na mão”, conta um familiar, que preferiu não se identificar.
Segundo o relato, o uso das redes sociais aumentou principalmente depois da pandemia, quando o celular virou uma das principais formas de distração e contato com outras pessoas. Com o tempo, o hábito se intensificou. “A gente percebe que ela prefere ficar no celular do que conversar com a gente. Mesmo quando está todo mundo junto, ela está ali, rolando a tela”, diz.
A família também começou a notar mudanças no comportamento. “Ela fica conectada por horas nas redes sociais, e quando o celular está quase acabando a bateria, ela já corre para manter ele ligado”, relata.Apesar da preocupação, o familiar afirma que a situação ainda está sendo enfrentada no dia a dia, sem soluções definitivas até agora.
Para a família, o maior desafio tem sido encontrar um equilíbrio, sem impor, mas tentando, aos poucos, resgatar a convivência que antes fazia parte da rotina.“É difícil, porque não dá para simplesmente tirar o celular. A gente tenta chamar para outras coisas, conversar mais, mas nem sempre funciona. Parece que estamos competindo com a tela”, desabafa.
Impactos na saúde mental
O uso frequente das redes sociais está diretamente ligado ao funcionamento do cérebro. Curtidas, comentários e notificações ativam o sistema de recompensa, liberando dopamina, substância associada à sensação de prazer.
Esse mesmo mecanismo está presente em outros tipos de vício, o que ajuda a explicar porque o uso excessivo das telas pode gerar dependência. Entre os principais efeitos estão ansiedade, irritabilidade e até sintomas depressivos.
Em casos mais intensos, o comportamento pode evoluir para a chamada “nomofobia”, termo que define o medo irracional de ficar sem o celular. A condição pode provocar reações físicas e emocionais, como falta de ar, tremores, estresse e sensação constante de inquietação.
Mudanças de comportamento são sinal de alerta
Os principais sinais de alerta aparecem quando o idoso passa a se afastar de atividades que antes eram comuns. Entre eles estão a perda de interesse por conversas presenciais, o isolamento social, a redução de atividades físicas e o uso contínuo do celular ao longo do dia.
Nessas situações, o apoio da família é fundamental. A orientação é que a redução do uso das telas seja feita de forma gradual, evitando mudanças bruscas que possam gerar ainda mais ansiedade.
Especialistas também recomendam a inclusão de atividades fora do ambiente digital, como leitura, artesanato, pintura, crochê e exercícios físicos. Essas práticas ajudam a reorganizar a rotina e estimulam o cérebro de forma saudável.
O tratamento para o uso excessivo de telas pode envolver acompanhamento psicológico, especialmente por meio da terapia cognitivo-comportamental. O objetivo é ajudar o idoso a desenvolver um uso mais equilibrado da tecnologia, sem abrir mão dos benefícios que ela oferece.
Fonte: Voz da Serra





