Daniel Vorcaro é um contêiner de surpresas. Não há dia em que não se abra um arquivo sem encontrar uma façanha de sua lavra. E, como todas, da ordem de milhões, bilhões de reais, capaz de quebrar bancos, envolver figurões da República e atolar os Poderes num lamaçal histórico. É um dos dois ou três nomes mais citados do noticiário, e o espantoso é que, até há pouco, ninguém ouvira falar dele. Mesmo hoje, não sei de ninguém que responda a perguntas simples, tipo: Como Vorcaro juntou tanto dinheiro e tão rápido? De onde tirou o know how? Quais foram seus mestres?
Para aprender o básico a seu respeito, fui à Wikipédia. Li que ele nasceu em Belo Horizonte, em outubro de 1983, tendo, portanto, 42 anos. O Brasil está cheio de rapazes dessa idade que ainda moram com a mãe, mas Vorcaro é um fenômeno —campeão de investimentos sem lastro, fraudes, simulações, concorrências ilegais, extorsões, coerções, difamações, ameaças físicas e chantagens, tudo isso a bordo de mansões, jatos, rolls-royces, resorts de luxo, salões medievais e pelelecas entre lençóis. Ninguém na sua geração tem tal currículo. Mas, como eu dizia, quem é o homem por trás desse mastersucesso?
Como foi sua infância? Usou chupeta até tarde? Terá jogado pelada, brincado de médico, matado aula? Levava a Playboy para o banheiro? Era religioso? (Devia ser, porque tem avô, irmã e cunhado pastores evangélicos ligados a uma igreja na capital mineira.) Na escola, qual seria sua especialidade? Matemática, contabilidade, prestidigitação, hipnotismo? Onde fez o pós-doc de sedução e burla? Com que capital começou seu fabuloso portfólio empresarial, composto de vento e papel pintado? Como se dava com seus colegas da Faria Lima? E até onde teria ido se não tivesse sido parado?
Só Deus sabe. Neste momento, seu império consiste de uma sala na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, reservada aos bacanas. É simples e sem luxos, mas decente. E, nela, Vorcaro dispõe na gaveta de um bom livro, que não lhe deve ser estranho.
A Bíblia.







