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Quem vai cuidar de você quando ficar velho? O Brasil não está preparado

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil – 15.06.2023

O Brasil está envelhecendo em velocidade recorde. Em 2000, os idosos representavam 8,7% da população. Em 2024, esse número saltou para 16,1%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, divulgada em agosto de 2025. São mais de 34 milhões de pessoas com 60 anos ou mais — um contingente maior do que a população inteira da Argentina. E esse número só vai crescer.

A expectativa de vida do brasileiro chegou a 76,6 anos em 2024, o maior índice já registrado na história do país, segundo as Tábuas de Mortalidade do IBGE. Quem chega aos 60 anos hoje pode esperar viver mais 22,6 anos, em média. Ótima notícia para os indivíduos. Um desafio gigantesco para o Estado.

O sistema de saúde está despreparado

Enquanto a população envelhece, a estrutura para cuidar dela anda na contramão. O Brasil tem pouco mais de 3.100 geriatras — médicos especializados no cuidado de idosos — segundo a pesquisa Demografia Médica Brasileira 2025. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) estima um déficit de dezenas de milhares de profissionais nessa área, considerando que a OMS recomenda 1 geriatra para cada mil idosos. Com 34 milhões de idosos no país, o déficit é colossal.

Para entender o tamanho do problema: apenas 0,7% dos médicos que concluíram a residência em 2020 escolheu geriatria como especialidade, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). No mesmo período, 9,5% optaram por pediatria — para uma população infantil que, ao contrário dos idosos, está diminuindo.

Pior: o número de leitos disponíveis em instituições de longa permanência para idosos (as populares “casas de repouso”, ou ILPIs) caiu de 0,6 para cada mil idosos em 2010 para apenas 0,4 em 2021, segundo dados do IEPS. Ou seja, ao mesmo tempo em que a demanda cresce, a oferta recua.

A família vai pagar a conta

Moradores de lar de idosos, em BrasíliaRafa Neddermeyer/Agência Brasil – 15.06.2023

Na ausência de estrutura pública e com serviços privados inacessíveis para a maioria, quem acaba cuidando dos idosos é a família — e, principalmente, as mulheres. Em muitos casos, um familiar tem que abandonar o emprego para se dedicar ao cuidado de um pai, mãe ou avô dependente. Isso impacta diretamente na renda da casa e na participação feminina no mercado de trabalho.

Das poucas ILPIs que existem no Brasil, apenas 6,6% são públicas. A maioria é filantrópica ou privada, e boa parte sofre com falta de financiamento e de profissionais qualificados, segundo pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva.

O relógio não para

Em 2030 — daqui apenas quatro anos — o Brasil terá mais pessoas acima de 60 anos do que crianças, segundo projeção do IBGE. O Senado Federal reconhece o problema e aprova projetos voltados à população idosa, mas legislar é diferente de estruturar serviços, treinar profissionais e destinar recursos de forma consistente.

A taxa de fecundidade do brasileiro caiu para 1,57 filho por mulher em 2023, segundo as Projeções de População 2024 do IBGE — bem abaixo dos 2,1 necessários para renovar a população. Menos jovens nascendo significa menos contribuintes para a Previdência, menos cuidadores disponíveis e mais pressão sobre um sistema já sobrecarregado.

O que precisamos fazer

Outros países passaram por esse mesmo processo — mas com décadas de antecedência para se preparar. Japão, Canadá e Dinamarca criaram redes de cuidado domiciliar, políticas de envelhecimento ativo e carreiras valorizadas para profissionais da área. O Brasil tem o diagnóstico na mão há anos. O que falta é transformar dados em decisão política.

Envelhecer com dignidade não pode ser privilégio de quem tem dinheiro. Mas, no ritmo atual, é isso que está acontecendo. A pergunta do título não é retórica. É um alerta. E o tempo para respondê-la está acabando.

Fonte: R7