
A ansiedade em relação ao envelhecimento, em especial o medo de perder a saúde com o passar dos anos, pode ir além do campo emocional. Um estudo conduzido por pesquisadores da New York University (NYU) e publicado neste mês na revista Psychoneuroendocrinology indica que esse tipo de preocupação pode, na verdade, estar associado ao envelhecimento acelerado entre as mulheres.
“(O estudo) avaliou duas coisas: os aspectos relacionados ao medo de envelhecer e a relação disso com marcadores biológicos no sangue, chamados de relógios epigenéticos”, diz Milton Crenitte, médico geriatra e pesquisador do Centro Internacional de Longevidade Brasil (CIL-BR). Os marcadores, ele explica, são baseados na análise do DNA e estimam o ritmo do envelhecimento biológico.
Como resultado, o artigo aponta que a ansiedade relacionada ao declínio da saúde atua como um estressor psicossocial crônico que mantém o corpo em um alerta constante, o que pode provocar reações físicas contínuas e alterações em mecanismos que regulam a atividade dos genes. Com isso, o organismo passa a funcionar de maneira desregulada.
Uma das hipóteses para o fenômeno é o desequilíbrio do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), sistema que controla a resposta ao estresse.
De acordo com o psiquiatra Adriano Segal, coordenador do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), é como se, na prática, o corpo não conseguisse “desligar” o sinal de alerta e permanecesse em tensão com frequência.
“O estresse que fomos desenhados para suportar ocorre em picos. Eles costumam ser muito elevados, nos colocam em estado de luta ou fuga, mas duram pouco tempo. Já o estresse das sociedades modernas não apresenta tantos picos: ele se torna crônico. Isso provoca um desgaste e um envelhecimento mais rápido. Mas isso é uma teoria que precisa de mais estudos”, detalha.
Mariana Rodrigues, doutoranda na Escola de Saúde Pública Global da NYU e primeira autora do estudo, destaca em comunicado à imprensa que a equipe já sabia, partir de pesquisas anteriores, que ansiedade, depressão e saúde mental de forma geral estão associadas a diversos desfechos de saúde física, “mas até agora os pesquisadores não haviam se concentrado em investigar se existe uma correlação entre a preocupação com o envelhecimento e o próprio processo de envelhecer”.
Apesar dos achados, a associação perde força quando os pesquisadores ajustam fatores como tabagismo, consumo de álcool e índice de massa corporal (IMC).
De acordo com o geriatra Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), isso indica que parte do impacto atribuído à ansiedade sobre o envelhecimento pode, na verdade, estar relacionada a hábitos prejudiciais à saúde que o estresse psicológico tende a estimular.
Também vale destacar que, como se trata de um estudo transversal, ou seja, que analisa apenas um momento específico da vida dos pacientes, os pesquisadores não podem afirmar que a ansiedade causa envelhecimento acelerado, apenas que há uma associação entre os fatores.
Envelhecimento e estética
O estudo utilizou dados do Midlife in the United States (MIDUS), um levantamento com adultos dos Estados Unidos. A amostra incluiu 726 mulheres que tinham dados disponíveis de metilação do DNA.
A ansiedade em relação ao envelhecimento foi medida por meio de três perguntas sobre preocupações com perda de atratividade, declínio da saúde e envelhecimento reprodutivo. Já o envelhecimento biológico foi medido por meio de exames de sangue.
Diferentemente do medo de doenças, a ansiedade relacionada à aparência física ou à fertilidade não mostrou associação consistente com marcadores epigenéticos de envelhecimento no estudo. Segundo Segal, isso pode acontecer porque mulheres com esse tipo de preocupação tendem a recorrer com mais frequência a hábitos considerados saudáveis.
Apesar disso, Crenitte entende que o medo de envelhecer sob o ponto de vista estético também pode estar associado a outros riscos à saúde, especialmente à saúde mental. De acordo com ele, o receio pode aumentar a ansiedade, favorecer o isolamento social e intensificar a busca por procedimentos estéticos.
“O medo de envelhecer e essa ansiedade gerada por preconceitos, por etarismo, também podem levar a pessoa a hábitos não saudáveis”, pontua. “Por isso, é importante ter um olhar holístico e global para a saúde das pessoas. Se deixarmos a saúde mental de lado, o impacto na integralidade do indivíduo será gigantesco.”
Envelhecimento saudável
Oliva destaca que, embora o risco de doenças crônicas aumente com a idade, o temor de muitos pacientes não está no diagnóstico em si, mas na possibilidade de perder a autonomia e se tornar dependente.
Para o geriatra, envelhecer bem vai além da ausência de doenças. O que define um envelhecimento saudável é a preservação da capacidade funcional, ou seja, manter a autonomia, o poder de decisão sobre a própria vida e a independência nas atividades do dia a dia.
A preservação dessa autonomia passa por hábitos consolidados ao longo da vida. Combater o sedentarismo, bem como evitar o cigarro, o álcool em excesso e os ultraprocessados são medidas recomendadas.
Avaliações de audição, visão e força muscular também fazem diferença. O uso de aparelhos auditivos ou bengalas, quando indicado, amplia a segurança e reduz o risco de quedas, por exemplo.
Fonte: Estadão





