Depois de muito refletir se valeria a pena tocar nesse tema, mesmo sabendo que nada vai mudar, que o povo está dominado, que olham para seu próprio umbigo, que aplaudem e beijam a mão do próprio carrasco, como um cãozinho a de seu dono, resolvi que ao menos como um desabafo deveria escrever, pedagogicamente e por desencargo de consciência.
Desde que o Brasil decidiu trocar o imperador pelo “governo do povo”, inaugurando a República em 1889, o voto passou a ocupar o centro do discurso democrático, como símbolo máximo da liberdade, ainda que, na prática, quase nunca tenha sido plenamente livre. O enredo mudou, os figurantes trocaram de roupa, mas o roteiro segue curiosamente familiar.
Na Primeira República, o método era direto: voto aberto, coronel de olho e eleitor obediente. Quem contrariasse, pagava com fome, violência ou exclusão. Era o voto de cabresto clássico, rude e sem verniz democrático.
Hoje, chamamos isso de passado superado. O erro é achar que o cabresto morreu. Ele apenas trocou o chicote pelo cartão, a ameaça pela dependência e o curral pela máquina pública. O cabresto moderno não grita. Ele administra. Distribui benefícios, empregos, controla expectativas e cultiva o medo de perder. O eleitor não vota por convicção, mas por autopreservação. Não escolhe ideias, renova contratos emocionais e materiais.
Os programas sociais, que deveriam ser políticas de Estado, tornaram-se ferramentas eleitorais permanentes. Não se compra voto com dinheiro vivo, isso seria crime grosseiro. Compra-se com dependência institucionalizada, apresentada como generosidade governamental. O eleitor aprende rápido: questionar custa caro.
O discurso oficial insiste em chamar isso de política social. A prática, porém, revela outra coisa: o voto passou a ser parcelado, pago mensalmente, reajustado conforme o calendário eleitoral e acompanhado de uma pedagogia sutil — “não morda a mão que te alimenta”.
E nesse ambiente de cabresto higienizado, surge a versão mais “honesta”, menos disfarçada, do projeto de poder: a dinastia declarada (mulher, filhos, irmãos…). Hoje, prefeitos e governadores anunciam aos quatro cantos, com sorriso no rosto e microfone aberto, que vão se “dedicar” a eleger a esposa, o filho para deputada estadual ou federal. Tudo às claras. Nada escondido. Um gesto quase pedagógico: “faço questão de avisar para que ninguém diga depois que não sabia”.
Não se fala em trajetória, preparo, produção intelectual ou serviço público relevante. Isso seria detalhe. O mérito exigido é outro: o sobrenome correto e a proximidade conjugal, a filiação, o parentesco com o dono da máquina.
E o mais curioso? Muitos aplaudem. Batem palmas com entusiasmo. Não perguntam quais são as qualificações dos futuros parlamentares, nem que projeto defendem. Votam porque o líder mandou. Porque sempre foi assim, por fidelidade.
Assim, segue a República que virou um empreendimento familiar, com sucessão planejada e eleitor treinado para obedecer. O poder troca de mãos dentro da mesma casa, enquanto o discurso segue falando em democracia, renovação e representatividade.
O eleitor, por sua vez, já não exige políticas públicas estruturais. Espera a boquinha, a ajuda, o favor. O voto vira costume, não escolha. Compra-se e vende-se com naturalidade cultural. Quem vende, justifica. Quem compra, governa tranquilo.
Enquanto isso, famílias políticas se perpetuam no poder com eficiência hereditária digna do século XIX. A República, que prometia alternância, tornou-se um sofisticado sistema de sucessão informal, tudo dentro da legalidade, tudo sob a bênção da “democracia”.
Tudo isso ainda recebe o nome de liberdade. O cabresto não acabou. Foi modernizado, normalizado e institucionalizado.
Agora, a pergunta final é para você, leitor: Você está no cabresto de quem? Vai continuar de joelhos, votando em figurantes? Vai votar para continuar com a boquinha? Pelas “tradições da família”? Pela fidelidade canina ao líder de sempre? Ou vai, finalmente, levantar a cabeça e lembrar que voto não é favor, não é herança e não é gesto de gratidão. VOTO é poder.
Enquanto essa resposta não mudar, o cabresto seguirá firme.
A verdade é que o eleitor dorme como escravo e acorda acreditando que é eleitor, sem perceber que o título de eleitor, nas mãos de quem tem alma de vassalo, é apenas a autorização para escolher quem irá chicoteá-lo nos próximos quatro anos. ACORDA BRASIL!






