Maria tinha 85 anos quando chegou ao consultório. Nos últimos meses, vinha emagrecendo, se sentindo fraca e insegura ao caminhar. A família relatava quedas recentes e uma mudança no comportamento: ela comia cada vez menos. Após uma avaliação geriátrica ampla, identificamos vários fatores envolvidos. Entre eles, algo aparentemente simples e infelizmente comum: ela fazia muitas refeições sozinha. Além disso, dizia que tinha preferência por alimentos fáceis de mastigar e em muitas noites decidia não jantar – comia apenas uma bolacha com um copo de leite.
Uma das minhas recomendações foi de que os familiares se revezassem para acompanhá-la nas principais refeições. O resultado foi surpreendente: mais apetite e, pouco a pouco, mais disposição.
Esse caso ilustra uma questão central do envelhecimento saudável: a alimentação adequada e variada é fundamental para manter a saúde, a autonomia e a funcionalidade ao longo da vida. E as proteínas têm protagonismo nesse cenário.
Proteína: muito além da moda
Com o envelhecimento, nosso corpo pode perder massa muscular de forma gradual — um processo chamado sarcopenia. Essa perda não afeta apenas a estética: aumenta o risco de quedas, limita a mobilidade, compromete a independência e pode impactar até a sobrevida.
A ciência tem mostrado que pessoas acima dos 60 anos precisam, em geral, de mais proteína do que adultos jovens. Para idosos saudáveis, recomenda-se cerca de 1,0 a 1,2 gramas de proteína por quilo de peso ao dia; em situações de perda muscular ou doença, esse valor pode chegar a 1,2 a 1,5 g/kg/dia. Além disso, não basta consumir proteína em quantidade: distribuí-la ao longo do dia — cerca de 25 a 30 gramas por refeição — parece favorecer o aproveitamento pelo músculo.
Na prática, isso significa valorizar alimentos como ovos, leite e derivados, carnes, peixes, frango, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico), tofu, oleaginosas e até combinações tradicionais da culinária brasileira, como arroz e feijão. A boa notícia é que não existe uma única fonte ideal: diversidade é parte da solução.
O risco de reduzir a comida a números
Mas aqui surge um alerta importante. Vivemos na era do “nutricionismo”: a ideia de que comer é apenas ingerir nutrientes. Com isso, frequentemente vemos informações sobre proteínas, calorias, vitaminas, gramas e porcentagens. Só que essa visão reducionista ignora algo essencial: comer é também um ato social, cultural, afetivo e político.
Quando nos sentamos à mesa, não estamos apenas alimentando o corpo. Estamos conversando, compartilhando histórias, reforçando vínculos, exercendo pertencimento. Para muitas pessoas idosas, a perda do apetite não é apenas biológica: pode estar relacionada à solidão, à depressão, a problemas dentários, à perda do paladar ou à falta de sentido nas refeições. Lembram da Maria? Pois é.
Falar de alimentação adequada, portanto, é considerar também a saúde mental, as relações sociais, a autonomia e a dignidade.
Fonte: Estadão





