
A cada dez idosos brasileiros que relatam sintomas de depressão, somente quatro recebem diagnóstico médico. A constatação é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e da University College London, com base em dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil).
O estudo também identificou diferenças no perfil dos idosos diagnosticados. Ser mulher, ter menos de oito anos de escolaridade e não praticar atividade física foram fatores associados a uma chance maior de receber o diagnóstico formal. Ainda assim, 62,7% dos idosos que relataram sintomas depressivos nunca tiveram confirmação clínica.
“Nesse estudo, trabalhamos com autopercepção de sintomas depressivos. Isso é muito diferente de um diagnóstico médico, que é feito através de critérios normativos dados nos diagnósticos de psiquiatria”, pondera Jefferson Traebert, professor da Unisul e um dos autores da pesquisa.
Os resultados foram publicados na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, do Sistema Único de Saúde (SUS), e reforçam a hipótese de que a depressão ainda é subdiagnosticada na terceira idade.
Parte da lacuna no diagnóstico pode estar relacionada à forma como os sintomas se manifestam em pessoas mais velhas, dizem os especialistas.
Cansaço persistente, alterações no sono, retraimento social, irritabilidade e queixas de memória são frequentemente interpretados como efeitos naturais do envelhecimento, e não como sinais de depressão.
A condição ainda pode estar ligada à solidão na terceira idade, de acordo com o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico no Einstein Hospital Israelita. “No adulto, há uma maior verbalização do sofrimento emocional, diferentemente do idoso, que acaba tendo sintomas mais atípicos ou mais somatizações”, pontua.
Esse aspecto pode ser um desafio importante, de acordo com Ivan Aprahamian, geriatra e diretor científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). “Conforme envelhecemos, ganhamos resiliência psíquica e as manifestações de sofrimento podem ser mais discretas, contidas ou mais controladas”, explica.
Outro ponto de atenção trazido por Zoldan são possíveis aspectos físicos da depressão, como dor crônica e sintomas gastrointestinais. “O humor deprimido no idoso nem sempre é a queixa principal”, alerta.
Medidas para reduzir o subdiagnóstico
Segundo os especialistas, o diagnóstico não deve se basear na impressão de que o idoso “está mais quieto”. Ele precisa ser amparado por métodos sistemáticos, como o uso de questionários validados.
Eles defendem a adoção de instrumentos de rastreamento especialmente na atenção primária e que a preocupação com o tema não se restrinja às consultas relacionadas à saúde mental, mas esteja presente no atendimento com o geriatra, o clínico e o cardiologista, por exemplo.
“Outra prática que pode ajudar no diagnóstico seria idosos com comprometimento cognitivo passarem por uma avaliação mais objetiva do humor e da sensação de fadiga”, acrescenta Zoldan.
Aprahamian menciona que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem programas pensados para a terceira idade que podem ser aliados no rastreio da depressão, como a Atenção Integrada para Pessoas Idosas (ICOPE). “(É uma forma de) implementar a identificação mais rápida de depressão através de acompanhamentos periódicos mais regulares desta parcela populacional”, destaca.
Traebert, por sua vez, ressalta a importância de não negligenciar a autopercepção dos idosos sobre a sua própria vida. Para o pesquisador, não dar ouvidos a essa autoavaliação “pode representar um sofrimento psíquico e ser um fator de risco para o diagnóstico da depressão”.
Perigos da depressão não tratada
As consequências da depressão não tratada vão além do impacto emocional. Um dos efeitos é a perda progressiva da autonomia, com prejuízo na capacidade de realizar atividades do dia a dia.
Outro ponto de atenção é a pseudodemência depressiva, condição em que sintomas da depressão simulam déficits cognitivos. “O idoso pode apresentar falhas de memória e lentificação do pensamento, o que pode ser confundido com demência”, explica o psiquiatra.
Zoldan ressalta ainda que a depressão é considerada um fator de risco para doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Em relação ao tratamento, ele defende o modelo biopsicossocial de cuidado, que inclui tanto o uso de medicamentos, quando indicados, quanto psicoterapia, estímulo à socialização, atividade física e suporte familiar.
Para ficar atento
Mesmo na ausência de diagnóstico, os especialistas elencam alguns sinais que merecem atenção:
- tristeza persistente ou apatia;
- isolamento social;
- alterações importantes no sono;
- perda de interesse por atividades habituais;
- queixas frequentes de memória ou concentração;
- sensação de inutilidade ou desesperança.
Diante desses sintomas, a orientação é buscar avaliação médica e psicológica.
Fonte: Estadão





