Pular para o conteúdo

Ainda se sente jovem? Entenda como o tempo passa dentro de você

The Summer Hunter

As mudanças físicas se tornam evidentes com o tempo. Por outro lado, a maturidade geralmente traz uma visão mais tranquila e segura sobre a vida. Ainda assim, lá no fundo, muitas vezes sentimos que continuamos sendo a mesma pessoa de sempre —com os mesmos sonhos, a mesma leveza e a mesma fome de mundo de quando éramos mais jovens.

“A idade é uma traição do corpo; por dentro nunca se envelhece”, diz a escritora espanhola Rosa Montero em “O perigo de estar lúcida” (Ed. Todavia). Menos mal que, de uns tempos para cá, a ideia de que amadurecer não significa abandonar o frescor e os hábitos da juventude vem sendo naturalizada.

Adultescente

As gerações mais recentes —X, Millennials e Z— estão redefinindo os marcos tradicionais da vida adulta. A saída da casa dos pais acontece mais tarde, assim como a estabilidade emocional, o casamento e a decisão de ter filhos. Para muitos, esse roteiro nem sequer faz sentido, e a prioridade passa a ser um estilo de vida alinhado às próprias vontades e valores.

Essa mudança de percurso e de ritmo, somada ao aumento da expectativa de vida, tem transformado o próprio conceito de juventude. Algumas instituições, como a ONU (Organização das Nações Unidas) , definem essa fase como o período entre os 15 e 24 anos. Mas estudiosos e outras instituições vêm estendendo esse intervalo até os 30 ou 35 anos, dependendo do contexto da análise — seja em políticas públicas, seja em pesquisas sobre desenvolvimento humano.

A consultoria WGSN, por exemplo, aponta o “adulto eternamente jovem” como uma tendência de consumo em ascensão. Segundo a análise, feita em 2025, o conceito de juventude deixou de ser um recorte etário rígido e passou a se estender por mais tempo, transformando a própria noção de cultura jovem. Nesse cenário, ganha força o consumidor adultescente: o adulto que segue desejando, consumindo e se identificando com produtos e códigos que, até pouco tempo atrás, eram direcionados quase exclusivamente a pessoas com (bem) menos de 20 anos de idade.

Uma questão de estado de espírito

Apesar do medo de envelhecer ainda ser forte em nossa sociedade, vivemos um momento em que o passar dos anos começa, lentamente, a ser visto de forma menos estigmatizada e estereotipada. E isso faz bem até para a saúde. Uma pesquisa publicada na renomada revista científica The Gerontologist revelou que pessoas com crenças positivas sobre o envelhecimento podem viver mais e melhor do que aquelas que encaram essa fase com pessimismo.

Graças aos avanços da medicina e à implementação de políticas públicas, uma parte da população — especialmente aqueles com mais recursos financeiros — tem conseguido cuidar melhor da saúde e aproveitar a vida da forma que deseja por mais tempo. Ou seja, é cada vez mais comum chegar aos 60 anos fazendo trilhas, pegando ondas ou se jogando na noite para dançar.

Um estudo publicado no ano passado na revista científica Psychology and Aging provou que a idade com a qual alguém é considerado velho também tem aumentado. Atualmente, adultos e idosos se sentem mais jovens do que pessoas com idades semelhantes há dez ou 20 anos. Por exemplo: os resultados indicam que, aos 64 anos, a média da percepção do início da velhice é por volta dos 75 anos. Com isso, referências como a meia idade aos 45 anos e a terceira idade aos 60 anos vêm perdendo o sentido. O envelhecimento é cada vez mais uma experiência pessoal e subjetiva.

Eternamente você

Ser um adulto eternamente jovem passa por entender que não precisamos abandonar certos gostos ou comportamentos da juventude por pressão social. A recusa de abrir mão do que sempre nos moveu ou que nos fez bem —e isso vai desde o jeito de se vestir até sair com os amigos para se divertir— pode evitar que sentimentos como a solidão, a melancolia e a falta de sentido na vida apareçam.

Manter a curiosidade e a mente aberta para experimentar coisas novas ajuda a cultivar o tesão pela vida. Aprender algo novo ainda potencializa esse estado de espírito, estimula a capacidade cognitiva e amplia as possibilidades de troca com pessoas que compartilham interesses semelhantes. Nesse percurso, as amizades intergeracionais surgem como um motor de renovação, ajudando a manter o olhar atento ao que acontece ao redor, oxigenando interesses, hobbies e conversas. O importante, afinal de contas, é seguir fazendo aquilo que mantém o brilho no olhar.

Fonte: Folha de S. Paulo