Uma decisão desinformada tomada no presente pode custar quase 40% do valor que o investidor receberá do seu plano de previdência no futuro, em um risco relacionado às taxas de administração elevadas cobradas por fundos com bilhões de reais sob gestão.
Muitas dessas aplicações são voltadas à renda fixa conservadora e possuem uma gestão simplificada, o que em tese deveria significar uma remuneração menor. Mas não é o que acontece: os maiores fundos de previdência cobram taxas que variam entre 1% e 2,5%.
Um simulador da startup de educação previdenciária LongevPrev ajuda a explicar o tamanho do impacto das taxas, que são cobradas sobre o patrimônio líquido.
Se escolher um fundo com taxa de 0,5%, um investidor de 20 anos que aplica R$ 1.000 mensais terá uma renda de R$ 3.810 ao longo de duas décadas quando fizer 65 anos —a conta considera um período de acumulação de 45 anos e juros reais médios de 3% ao ano.
Já se escolher um fundo com taxa de 2% nessas mesmas condições, essa aposentadoria cairá para R$ 2.312, 39,3% a menos e uma diferença de quase R$ 1.500. Isso acontece porque a taxa de administração come um pedaço da rentabilidade do fundo.
Para Arlete Nese, cofundadora da LongevPrev ao lado do economista e especialista em previdência Fabio Giambiagi, as simulações ajudam a mostrar a necessidade de se olhar com lupa a taxa cobrada pelo plano de previdência, uma aplicação de longuíssimo prazo e que têm como objetivo garantir nada menos que a aposentadoria.
A LongevPrev construiu o simulador com o objetivo de facilitar a avaliação de quanto é necessário guardar para a aposentadoria, dependendo da renda pretendida, o capital inicial, a idade em que a pessoa começa a poupar e com quantos anos pretende parar de trabalhar.
A ferramenta permite calcular essa mesma contribuição em diferentes premissas, como taxa de administração, juros reais, inflação e tempo de usufruto estimado, entre outros parâmetros.
“O impacto que as taxas podem ter sobre o patrimônio do fundo é assustador”, diz ela. “Elas remuneram o gestor, mas em muitos casos os investimentos são feitos em produtos simples, como títulos de curto prazo, CDBs [Certificados de Depósito Bancário], Selic. Isso não requer grande expertise, e o investidor é penalizado pela taxa cobrada.”
Dados de junho do Ministério da Previdência Social ajudam a ilustrar esse ponto. Entre as entidades abertas de previdência complementar, 68,9% dos investimentos têm como indexador a taxa básica de juros, a Selic. Quando se olha o prazo, 81% das instituições investem em aplicações de até cinco anos.
Segundo Nese, a taxa de administração média cobrada pelos fundos de previdência complementar aberta no Brasil corroeu cerca de 15% do patrimônio desses investimentos apenas no período entre 2015 e setembro de 2024, com a taxa de administração média variando entre 1,45% e 1,36% no período.
Entre os grandes fundos, que deveriam ter taxas menores por causa dos ganhos em escala, as taxas são ainda maiores, o que explica sua rentabilidade reduzida.
Um levantamento feito pela corretora Rico mostra que nenhum dos 20 fundos de previdência com patrimônio acima de R$ 1 bilhão superou o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que é a referência da rentabilidade da renda fixa, nos últimos 36 meses. As aplicações, dos bancos Banco do Brasil (BrasilPrev), Itaú Unibanco, Caixa e Santander, possuem taxas de administração entre 1% e 2,5%.
Antônio Sanches, analista de research da Rico, aponta que é importante o investidor saber o quanto da rentabilidade do fundo é reduzida pela taxa de administração.
“Quando o investidor olha a rentabilidade, é importante saber que ela já desconta esse custo, que entra como custo operacional do fundo, para que ele possa manter sua estrutura e contratar funcionários”, afirma.
Ele lembra que, por muitos anos, os fundos de previdência dos grandes bancos, que em geral optam por uma gestão extremamente conservadora, eram praticamente a única opção do mercado.
“Esses fundos escolhem investimentos de pouco risco, e não conseguem superar o CDI por causa da taxa de administração”, diz. “Com o movimento de democratização de investimentos, isso tem mudado um pouco. Você vê novos fundos de previdência com estratégias mais sofisticadas e que focam em uma rentabilidade um pouco maior.”
Para Sanches, diversificar a previdência em um número maior de fundos pode ser uma boa estratégia, assim como optar pela portabilidade caso o investidor esteja insatisfeito com o seu plano.
“O investidor pode procurar mais de um fundo de previdência para diversificar sua estratégia. Além disso, pode procurar previdências similares com taxas de administração mais competitivas, oferecendo retornos maiores, e procurar pela portabilidade sem precisar resgatar e ter todos os custos de imposto que teria com resgate.”
Procurados, o Santander e o Itaú Unibanco não comentaram o levantamento da Rico. Banco do Brasil e Caixa não haviam respondido até o fechamento da reportagem.
Fonte: Folha de SP





