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Por que os idosos são mais vulneráveis ao calor extremo?

O fluxo sanguíneo para a pele e a produção de suor são menores em pessoas mais velhas do que em jovens — Foto: Freepik

O sudeste da Austrália enfrenta uma onda de calor recorde, com temperaturas acima de 40 °C em muitas regiões. Para pessoas vulneráveis — especialmente australianos mais velhos — esse calor não é apenas desconfortável, mas perigoso.

As altas temperaturas podem agravar problemas de saúde já existentes e, em alguns casos, até ser fatais. Por isso, à medida que os termômetros sobem, é importante entender por que algumas pessoas correm mais riscos.

Veja como identificar se alguém não está lidando bem com o calor — e como se manter seguro.

Por que é mais difícil para pessoas mais velhas se manterem frescas?

Nosso corpo conta com vários processos para regular a temperatura. Primeiro, o coração direciona o sangue para a pele, levando o calor do núcleo do corpo até a superfície.

Segundo, quando suamos e esse suor evapora da pele, o excesso de calor corporal é liberado para o ambiente. Mas, com o envelhecimento, esses processos se tornam menos eficientes.

O fluxo sanguíneo para a pele e a produção de suor são menores em pessoas mais velhas do que em jovens. Isso faz com que o corpo retenha mais calor por mais tempo.

Por que isso é perigoso

Muitas vezes, o verdadeiro perigo não é apenas o superaquecimento, mas o esforço que o calor impõe ao sistema cardiovascular (coração, sangue e vasos sanguíneos), que precisa “servir a dois senhores”. Durante o calor intenso, o coração trabalha muito mais. Ele desvia sangue para a pele para eliminar o excesso de calor, ao mesmo tempo em que tenta suprir as necessidades de oxigênio de outros órgãos vitais.

Isso ajuda a explicar por que, durante ondas de calor, os hospitais não ficam lotados de pessoas idosas com insolação. Em vez disso, o grande aumento nas admissões em emergências ocorre principalmente por causa do agravamento de doenças pré-existentes, como diabetes e problemas cardíacos, pulmonares ou renais.

Adultos mais velhos têm maior probabilidade de conviver com pelo menos uma doença crônica, e em ondas de calor que duram vários dias sem trégua essas condições podem piorar rapidamente. Quanto mais doenças crônicas uma pessoa tem, maior a chance de precisar de hospitalização durante períodos de calor intenso.

Medicamentos comuns também podem interferir nos mecanismos de resfriamento do corpo. Diuréticos aumentam o risco de desidratação, enquanto betabloqueadores e alguns antidepressivos podem prejudicar a sudorese, assim como medicamentos anticolinérgicos (presentes em alguns tratamentos para problemas de bexiga, alergias e doença de Parkinson).

Fatores sociais também podem agravar a situação

Embora o número de aparelhos de ar-condicionado tenha aumentado muito na Austrália nas últimas duas décadas, o custo elevado da energia faz com que muitos idosos relutem em usá-los. Outros vivem sozinhos ou têm mobilidade reduzida. Condições que afetam o pensamento e a memória, como a demência, também podem dificultar que a pessoa avalie o próprio risco e se lembre de beber líquidos.

O que observar

Fique atento a sinais de que você ou alguém próximo não está lidando bem com o calor. Em pessoas idosas, esses sinais podem ser sutis. Indícios iniciais de estresse térmico incluem:

  • Cansaço excessivo ou letargia
  • Perda de equilíbrio
  • Confusão mental
  • Falta de ar
  • Diminuição da urina ou urina escura (o que pode indicar desidratação e sobrecarga dos rins)

Em quem tem doenças crônicas, observe qualquer piora dos sintomas habituais. A exaustão pelo calor é mais grave e exige ingestão de líquidos e descanso em um ambiente fresco.

Os sinais incluem suor muito intenso, náusea, dor de cabeça e cãibras musculares. A insolação apresenta sintomas semelhantes, mas é uma emergência médica e requer atendimento imediato.

Ela também se caracteriza por pele quente e seca, quando o sistema de regulação térmica do corpo falha. Isso ocorre quando a temperatura central do corpo ultrapassa 40 °C, podendo levar à perda de consciência e à falência de órgãos.

Como se manter seguro

Além das orientações habituais — manter-se hidratado, buscar sombra e reduzir atividades físicas — algumas estratégias simples podem ajudar a reduzir os impactos do calor extremo em pessoas idosas.

O ar-condicionado continua sendo a forma mais eficaz de proteção contra o calor. Se você não tem ar-condicionado em casa, considere ir a locais como shoppings ou bibliotecas durante as horas mais quentes do dia.

Se tiver ar-condicionado, ajustá-lo para 26–27 °C e usar um ventilador de coluna pode reduzir o consumo de energia em até 76% e ainda melhorar o conforto.

Para quem não tem ar-condicionado, o ventilador sozinho pode ajudar. Molhar a pele ou a roupa em combinação com o ventilador aumenta o resfriamento por evaporação sem exigir que o corpo produza mais suor.

No entanto, em pessoas idosas (que suam menos), a eficácia dos ventiladores começa a diminuir entre 33 e 37 °C. Acima de 37 °C, o ventilador pode, na verdade, aquecer o corpo mais rápido do que o suor consegue compensar.

Por isso, é importante manter a pele úmida ou buscar outras formas de resfriamento ao usar ventilador em temperaturas acima de 37 °C.

Até medidas simples, como mergulhar as mãos e os antebraços em água fria da torneira por dez minutos a cada meia hora, já demonstraram reduzir significativamente a temperatura corporal e o esforço do coração.

Em resumo

O calor não discrimina, mas suas consequências, sim. Durante uma onda de calor, fique atento a familiares e vizinhos mais velhos. Se você ou alguém próximo apresentar sintomas de insolação, como fala arrastada, confusão, desmaio ou pele quente e seca, ligue imediatamente para o 000.

Fonte: O Globo