
A neurologista Maria Helena Estrela tinha acabado de completar 50 anos quando perdeu o marido, o ginecologista e obstetra Wilson Gomes Pinto, de 52. O ano era 1995. Ele morreu de fibrose pulmonar, uma doença respiratória grave que, entre outros sintomas, provoca falta de ar, tosse persistente e cansaço extremo. Desde então, Estrela, como é conhecida por médicos e pacientes, mora sozinha no mesmo apartamento de três quartos em São Paulo.
“Em nenhum momento, cogitei me mudar para a casa da minha filha. O apartamento dela é menor que o meu. Propus uma troca: ela moraria aqui, com os filhos, e eu, lá. Não aceitou”, explica a médica de 80 anos, que continua dando plantão, todos os dias, no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo. “Vivo muito bem sozinha. Eu, meus livros, minhas plantas e meus telejornais. Gosto de saber o que está acontecendo no País e no mundo”.
Segundo estudos internacionais, a maioria dos idosos prefere envelhecer em casa, sozinho ou em família, a envelhecer em ILPIs, sigla para Instituições de Longa Permanência para Idosos. Um desses estudos é dos Estados Unidos. Pesquisa da Universidade de Michigan revela que 76% dos entrevistados rejeitam o modelo da moradia assistida, e acolhem o conceito de “aging in place” (ou “envelhecer no lugar onde vivem”, em livre tradução).
No Brasil, 5.664.602 milhões de idosos moram sozinhos, em domicílios unipessoais – 1.336.761 deles, como a médica Maria Helena, em São Paulo. Por outro lado, 161 mil brasileiros com 60 anos ou mais vivem em ILPIs, o termo técnico para casas de repouso. Segundo dados do IBGE, a maioria dos moradores dessas ILPIs vive nas regiões Sul e Sudeste (82,3%), é formada por mulheres (59,8%) e apresenta uma alta taxa de analfabetismo (31%).
“A maior parte dos idosos prefere envelhecer em casa onde, entre outras razões, existe vínculo afetivo e sensação de autonomia”, explica a fisioterapeuta Isabela Azevedo Trindade, diretora da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). “Mas, em alguns casos, a casa de repouso se torna uma alternativa mais segura, principalmente quando o idoso necessita de supervisão contínua ou quando sua rede de apoio é limitada”.
Planejamento é fundamental
Se o idoso deseja envelhecer em casa, precisa começar a pensar nisso o quanto antes. Segundo Isabela, alguns passos são essenciais, como a adaptação do domicílio, com a retirada de tapetes soltos e a instalação de barras de apoio; a organização financeira, com o planejamento de gastos futuros, com remédios, terapias e cuidadores; e a manutenção da saúde, com programas contínuos de exercícios físicos e avaliação periódica de habilidades cognitivas, entre outros.
“A enorme maioria aspira envelhecer em casa. Mas, não basta querer. Há que se ter condições individuais favoráveis e boa adaptação do domicílio. O ambiente precisa ser confortável e seguro. Nada disso acontece por acaso. Exige planejamento”, reitera o geriatra Wilson Jacob Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP). “Se eu tivesse que dar uma dica a quem deseja envelhecer em casa, diria: prepare-se! ‘Quem vai ao mar, avia-se em terra!’, dizia José Saramago”.
Entre outras recomendações, Jacob Filho acrescenta: consulte um profissional, “não tente resolver tudo sozinho”, e alie-se à tecnologia, “ela pode reduzir vulnerabilidades e aumentar potencialidades”. Foi o que a médica Maria Helena Estrela fez. Desde 2020, ela usa os serviços da TeleHelp, um serviço de teleassistência que, entre outros recursos tecnológicos, disponibiliza um botão de emergência para os seus 16 mil associados.
“Sabe quantas vezes acionei esse botão em cinco anos? Nenhuma!”, diverte-se Estrela. “Só de saber que tenho com quem contar, já me sinto mais tranquila e segura”. Em caso de emergência, como dor, queda ou mal-estar, a empresa entra em contato com a vizinha da porta da frente, com o zelador do prédio onde ela mora e com a sua filha única, Cláudia, que mora a dez minutos de distância. “Todos têm a chave do meu apartamento.”
Segundo pesquisa realizada pela TeleHelp com 6 mil usuários, 62% têm medo de queda. Na sequência, aparecem outros temores, como o de não conseguir pedir ajuda (49%) e o de dar trabalho à família (22%). Apesar dos riscos, envelhecer em casa continua sendo a preferência da maioria. Motivos? Valorização da autonomia (67%), segurança emocional proporcionada pelo ambiente familiar (56%) e convivência com vizinhos (45%).
Morando com o perigo
A decisão de envelhecer em casa abrange, como dizem os especialistas, planejamento. Infelizmente, só 4% da população brasileira se prepara para a chegada da velhice. É o que diz a pesquisa A Permanência da Impermanência, realizada com 1.538 participantes de 18 a 84 anos. Isso inclui, entre outros cuidados, a retirada de fios soltos da sala de estar, o remanejamento de prateleiras altas na cozinha e a instalação de assentos elevados no banheiro.
“Há algumas armadilhas que devem ser observadas à medida que a idade avança. É preciso manter espaços de circulação livres e desimpedidos. O excesso de móveis e objetos podem ser obstáculos perigosos”, alerta a arquiteta e urbanista Maria Luisa Trindade Bestetti, professora da USP. “Na cozinha, prateleiras altas sugerem a subida em escadas ou banquetas. Artigos de primeira necessidade, portanto, devem ficar sempre à mão do usuário.”

Tão importante quanto evitar as armadilhas da casa é descobrir o que o entorno dela oferece, como mercado, farmácia e padaria. A dica é da jornalista Beltrina Côrte, CEO do Portal do Envelhecimento. “O que fazer? Bem, vou começar pelo que não fazer: se isolar. Se você deseja viver o máximo de tempo possível no lugar onde vive, deve trabalhar para construir um ambiente favorável. Caso contrário, corre o risco de ficar ilhada”, adverte.
O primeiro passo, destaca Beltrina, é fortalecer os laços sociais com a vizinhança, tanto do prédio quanto do bairro. Em outras palavras: faça amizade com o jornaleiro, o fisioterapeuta, a cabeleireira… “Com quem eu posso contar em caso de necessidade?”, Beltrina faz a pergunta de um milhão de dólares. O segundo, prossegue, é desbravar o bairro onde mora. No caso dela, a Vila Mariana, em São Paulo. O que ele tem de bom para oferecer a velhos e velhas?
“A Supervisão de Assistência Social (SAS) Vila Mariana promove encontros e debates. Além de conhecer pessoas, conhecemos organizações da sociedade civil que oferecem cursos, oficinas e workshops. Há dias, fiz um de reforma de roupa. Aos 66 anos, peguei numa máquina de costura pela primeira vez na vida. É um espaço que reúne pessoas de todas as faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade”, recomenda Beltrina.
Idoso não é criança
Não é todo idoso que, a exemplo de Maria Helena Estrela, chega aos 80 anos, esbanjando independência e autonomia. O idoso é independente quando, fisicamente, é capaz de executar tarefas básicas da vida diária, como tomar banho, se vestir e comer. E é autônomo quando, cognitivamente, consegue realizar atividades instrumentais, um pouco mais complexas que as básicas, como usar o telefone, fazer compras ou cuidar das finanças.
Para os idosos que dependem dos outros, tanto física quanto cognitivamente, há pelo menos três opções: contratar os serviços de um cuidador, mudar-se para a casa de parentes (sem que ele se sinta um intruso) ou envelhecer numa casa de repouso. A SBGG recomenda que o cuidador seja empático, paciente e responsável, e mais: tenha curso reconhecido e experiência comprovada. Conhecimentos básicos de higiene, medicação e até primeiros socorros também são desejáveis.
“Envelhecer em casa não é viável para todos. A maioria dos brasileiros não envelhece em boas condições”, lamenta a fisioterapeuta Mariana Santimaria, responsável pelo Vitalità – Centro de Envelhecimento e Longevidade da PUC-Campinas. “Um dos cuidados que a família deve tomar na hora de contratar um cuidador é deixar a pessoa idosa participar do processo de seleção. Em nenhuma hipótese pessoas idosas devem ser tratadas como crianças”.
“Qual é o lugar ideal para envelhecer? A resposta é: ‘Depende’”, responde o médico paliativista Arthur Fernandes da Silva, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). “Depende do quê? Do que ele oferece para o idoso. Quanto mais segurança e aconchego, melhor”, observa.
Fonte: Estadão





