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A vida da população idosa nas cidades do Brasil

Desde a segunda metade do século XX, especialmente entre as décadas de 1950 e 1970, o Brasil passou por um importante processo de transição demográfica, caracterizado pela redução das taxas de natalidade e pelo aumento progressivo do envelhecimento populacional. Esse fenômeno se reflete no crescimento do número de pessoas idosas, definidas como aquelas com 60 anos ou mais, segundo a Organização Mundial da Saúde e o Estatuto da Pessoa Idosa. Com esse cenário, surgem novas demandas que vão além da acessibilidade física, exigindo o fortalecimento de oportunidades, de espaços de lazer e de formas efetivas de interação e participação social. Envelhecer nas cidades não pode ser compreendido apenas como viver mais, mas como viver com dignidade e plenitude.

As transformações biológicas próprias dessa fase da vida incluem perda de massa muscular e densidade óssea, alterações cognitivas e sensoriais, além de mudanças visíveis no corpo. Muitas dessas condições podem e devem ser acompanhadas por especialistas, como o médico geriatra. No entanto, é imprescindível destacar o papel central da Atenção Primária à Saúde, responsável pela prevenção de agravos, pelo acompanhamento contínuo e pela promoção do envelhecimento ativo. Quando fortalecida, a Atenção Primária contribui diretamente para melhores indicadores de saúde da população idosa, especialmente por sua atuação territorializada, que favorece o conhecimento da realidade social, familiar e comunitária dos usuários.

O ambiente urbano brasileiro ainda impõe inúmeros desafios à população idosa. A precariedade do transporte público, a ausência de calçadas seguras, a violência urbana, o isolamento social, a falta de acessibilidade em espaços públicos e as dificuldades de acesso a serviços essenciais afetam diretamente a saúde física e mental dos idosos. Essas condições elevam o risco de quedas, depressão, agravamento de doenças crônicas e aumento da dependência funcional. Embora experiências internacionais, como as iniciativas de “cidades amigas do idoso” adotadas em países como a Espanha, apresentem resultados positivos, o Brasil ainda avança de forma lenta nesse campo.

Diante desse contexto, torna-se fundamental utilizar esses exemplos bem-sucedidos como referência para o planejamento urbano brasileiro, incorporando diretrizes inclusivas nos planos diretores e nas políticas públicas municipais. Esse esforço, contudo, não deve se restringir à atuação do Estado. A construção de cidades mais acolhedoras ao envelhecimento também exige responsabilidade social do setor privado, incluindo construtoras e empresas ligadas ao desenvolvimento urbano.

Para os profissionais de saúde e acadêmicos da área, há o compromisso ético e social de defender políticas públicas que fortaleçam as redes de atenção à saúde da pessoa idosa, priorizando a prevenção de agravos e a promoção do envelhecimento ativo. Essa luta também envolve a defesa de cidades mais inclusivas, com garantia de direitos sociais e respeito à dignidade humana. Cuidar da população idosa é uma responsabilidade coletiva, que diz respeito não apenas a quem já envelheceu, mas a todos que, inevitavelmente, envelhecerão.

Por João Gabriel Portilho