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Com captura de Maduro, EUA alertam mundo que imposição pela força é opção legítima e alvos não param na Venezuela

Donald Trump fala em coletiva de imprensa após ações militares dos EUA na Venezuela. — Foto: Jim WATSON / AFP – via O Globo

Um dia após a operação militar americana contra a Venezuela e a captura do líder chavista, Nicolás Maduro, uma publicação nas redes sociais provocou um incidente internacional entre os EUA e um aliado europeu. Em uma publicação nas redes sociais, a esposa do vice-chefe de Gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, Katie Miller, postou um mapa com o contorno da Groenlândia coberto com a bandeira americana, e os dizeres “em breve” — uma mensagem que mereceu resposta diplomática tanto por parte da Dinamarca quanto da ilha ártica, em um momento em que a cúpula do governo Donald Trump reforça que o uso da força é uma opção vista como legítima por Washington, e distribui recados ameaçadores a uma série de países.

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, chamou a imagem de “desrespeitosa” em uma manifestação via Facebook, e afirmou que as relações entre os povos tem como base “o respeito e o direito internacional”, e não “símbolos que ignoram nossos status e direitos”. O embaixador da Dinamarca — nação mãe do território autônomo — nos EUA, Jesper Moller Sorensen, pediu respeito à integridade territorial, e defendeu a relação amistosa entre as nações.

O incidente diplomático horas depois da contundente operação contra Caracas foi apenas a última de uma série de declarações que indicam que a Venezuela não é o único alvo sujeito a uma operação dos EUA com uso de força. Apenas em falas entre sábado e domingo, Colômbia, Cuba e México foram mencionados de forma hostil pelo presidente americano, Donald Trump, e integrantes da cúpula do governo, que também reforçaram a mensagem impositiva dos EUA — que já pairou por outros países.

Trump comentou sobre Cuba durante a coletiva de imprensa realizada no sábado, quando detalhou a captura de Maduro. Ao responder a uma pergunta de um repórter que se identificou como cubano, ele afirmou que o país caribenho deverá entrar na pauta de Washington em breve, falando em “ajudar o povo de Cuba”. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, foi mais enfático na sugestão de uma possível ação.

— Quando o presidente [Trump] fala, é preciso levá-lo a sério. Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado — disse o secretário, que também criticou a cooperação entre os regimes cubano e venezuelano.

O governo de Havana foi um dos primeiros a condenar a operação contra Caracas. Outro país que foi rápido em condenar a ação foi a Colômbia, que também tornou-se alvo de pressões americanas, após embates entre o presidente Gustavo Petro com Trump, que acusa o sul-americano de ser conivente com o tráfico internacional de drogas — uma das bandeiras indicadas pelo Pentágono para justificar o cerco à Venezuela.

— Ele está produzindo cocaína e enviando para os EUA, então sim, ele precisa ficar de olho no próprio traseiro — disse o presidente americano durante a coletiva de imprensa, após ser questionado sobre a reação de Petro à captura de Maduro, denunciando a ação, mas dizendo não se preocupar em ser alvo de uma ofensiva similar.

Mesmo antes do pronunciamento oficial, Trump sugeriu que “algo poderia acontecer” com o México — país da região que também condenou a violação de soberania da Venezuela e a captura de Maduro. À emissora Fox News, o presidente americano afirmou que algo precisava ser feito com relação ao país vizinho, citando a presidente Claudia Sheinbaum e suas dificuldades em lidar com o narcotráfico.

Trump transforma ameaças militares em rotina de política externa — Foto: Editoria de Arte/O Globo

— Ela tem muito medo dos cartéis — disse o republicano, que no início de seu mandato equiparou uma série de grupos criminosos ligados ao tráfico internacional, a maioria mexicanos, em organizações terroristas. — Eles estão governando o México. Eu perguntei a ela inúmeras vezes se ela queria que nós nos livrássemos dos cartéis. ‘Não, não, não, senhor presidente, não, não, não, por favor’. Então nós temos que fazer alguma coisa.

Posteriormente, Trump chamou Sheinbaum de “amiga”, e disse não ter tido a intenção de ameaçar uma invasão. O cenário, porém, é de desconfiança. Em novembro, fontes americanas afirmaram que o Exército havia começado a treinar tropas para uma possível operação terrestre em território mexicano, mirando os cartéis. Reiteradamente, a presidente mexicana rejeitou a cooperação militar direta americana, negando a presença de soldados estrangeiros no país.

Embora Trump tenha ameaçado intervenções diretas em uma série de outros países, incluindo o Panamá e a Nigéria — que cederam a exigências americanas, tendo o primeiro abandonado a iniciativa “Cinturão e Rota”, em um gesto de alinhamento à campanha de contenção da influência de Pequim no continente, e o segundo autorizado bombardeios contra o Estado Islâmico em seu território —, a ação contra Maduro marcou uma escalada decisiva quanto ao uso da força.

— Como disse o presidente, nossos adversários permanecem em alerta. Os EUA podem impor sua vontade em qualquer lugar, a qualquer momento — disse o secretário de Defesa Pete Hegseth, na coletiva em Mar-a-Lago. — Trata-se da segurança, da liberdade e da prosperidade do povo americano. Isso é “América primeiro”. Isto é a paz através da força.

No caso da Groenlândia, não houve qualquer declaração pró-Venezuela. Trump citou o necessidades estratégicas americanas no território rico em minerais e em uma posição geográfica importante em relação à Europa e à Rússia antes mesmo do início de seu segundo mandato. O presidente chegou a propor anexá-la ou comprá-la, sendo alvo de recusas por parte das forças políticas da ilha e da capital europeia.

Consultado em uma entrevista por telefone à The Atlantic sobre a Groenlândia, Trump disse que a decisão cabia a outros, segundo a revista.

— Terão que avaliar eles mesmos. Realmente não sei — disse Trump, segundo a publicação. — Mas precisamos da Groenlândia, com certeza. Precisamos dela para defesa.

Após a declaração de Trump, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, pediu que os EUA “cessem suas ameaças contra um aliado histórico”.

— Devo dizer muito claramente aos EUA: é totalmente absurdo dizer que os EUA deveriam assumir o controle da Groenlândia — disse a líder dinamarquesa em um comunicado.

Fonte: O Globo