A expectativa de vida no Brasil aumentou para 76,6 anos em 2024, de acordo com o IBGE: a previsão para os homens é de 73,3 anos e para as mulheres é de 79,9 anos. Em 2024, segundo a Divisão de População da ONU, 588 mil pessoas chegaram aos 100 anos em todo o mundo.
Na minha pesquisa sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, tenho 30 exemplos dos chamados superidosos, pessoas de mais de 90 anos com excelente saúde física e mental. Infelizmente, já escutei algumas vezes: “seus amigos são exceções, ninguém chega aos 90, 100 anos com tanta saúde física e mental. Por que você não estuda velhos doentes e inválidos?”
Meu amigo Nobolo vai fazer 102 anos no dia 6 de janeiro de 2026. Médico muito querido em Mogi das Cruzes, ele só parou de atender seus pacientes quando foi decretada a pandemia de Covid-19. Ele joga golfe, todos os dias, durante quatro horas, subindo e descendo oito quilômetros em um campo montanhoso.
Em outubro, estive em Mogi pela terceira vez para filmar meu amigo jogando golfe e confesso que não tenho fôlego para acompanhar a sua energia impressionante. Aos 101 anos, ele se tornou o quarto homem mais velho do mundo a fazer um “hole in one” (“buraco em um”, em inglês): uma jogada perfeita no golfe, em que o jogador acerta a bola diretamente no buraco com uma única tacada a partir da área de saída. Meu amigo admirável não toma remédios e não tem nenhuma doença. Sempre sorridente, ele agradece a Deus por sua saúde física e mental: “arigatô, arigatô, arigatô!”. Seu mantra? “Eu vou viver 120 anos”.
Minha amiga Thais, que fez 100 anos no dia 16 de agosto de 2025, raramente reclama da saúde. Algumas vezes, quando sente dor nos joelhos, ela brinca: “preciso deixar de ser preguiçosa e caminhar todos os dias. Quem mandou viver 100 anos?”
Ela tem 9 filhos, 18 netos, 14 bisnetos e muitos amigos que lotaram a igreja na missa do seu aniversário. Conheci Thais em um curso que dei sobre “A Bela Velhice”, na Casa do Saber, em 2013. Ela foi minha melhor aluna, anotando tudo no seu caderninho azul. No final do curso, ela me agradeceu: “Mirian, muito obrigada ter me ensinado a dizer não”.
Na pandemia, Thais começou um curso de italiano em um aplicativo e é a aluna número 1, estudando todos os dias. Pelo celular, ela paga todas as contas, faz as compras de supermercado e de farmácia, compra seus livros e tudo o que precisa. Todos os dias, ela me dá de presente pensamentos de Clarice Lispector, Manoel de Barros, Mário Quintana e muitos outros. Um deles, de Caio Fernando Abreu, se tornou meu mantra: “um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso e fui…”
Minha amiga Nalva, de 98 anos, é uma pianista fantástica e acabou de escrever seu quinto livro. Ela não gosta de ser chamada de velha.
“Eu não sou velha, sou uma flor de outono. Eu floresci, desabrochei com o passar do tempo. Minha idade cronológica é 98, mas minha idade biológica é 60, tenho uma saúde de ferro. E a idade da minha alma é a mesma da criança que um dia eu fui e que nunca deixei de ser. Minha alma é eterna, imortal”.
Nobolo, Thais e Nalva representam um futuro cada vez mais possível para todos nós. Apesar de ainda vivermos em uma cultura velhofóbica, com o envelhecimento acelerado da população brasileira, o jovem de hoje será, muito provavelmente, o superidoso de amanhã.






