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O Brasil não tem povo — tem público

Em 1922, Lima Barreto olhou para o Brasil e escreveu, já exausto: “o Brasil não tem povo, tem público”. Ele não imaginava ou talvez imaginasse que mais de cem anos depois a frase deixaria de ser metáfora para se transformar em diagnóstico clínico de um país internado há décadas na UTI de uma República nascida de um golpe.

A plateia continua a mesma. Só trocaram o cenário, os atores… e subiram o volume da palhaçada.

Quando Lima Barreto escreveu que não tínhamos povo, o Brasil vivia sob a política do “café com leite”, mas nada se comparava ao café com chantilly que a primeira-dama bebe hoje, pago com cartão corporativo, claro, já que limite é coisa para pobre.

Naquela época, o voto não era secreto, o que facilitava a manipulação eleitoral conhecida como voto de cabresto, controlado pelos coronéis, líderes locais. Atualmente, o voto é secreto e mulheres e analfabetos têm o direito de votar. Contudo, segundo muitos processos por “compra de votos” na justiça eleitoral, ainda existem dúvidas sobre o real impacto dessa prática nas decisões eleitorais.

A elite mandava. Hoje quem manda é… bom, depende do dia: uma hora é o Executivo, outra é o STF, outra é o influencer do momento. Quem dá a última palavra é sempre quem fala mais alto, não quem tem mais legitimidade.

O Brasil virou uma mesa de bar onde cada poder quer ser o dono da conta, mas quem paga é sempre o mesmo: o público.

Ah, o povo… povo significa, consciência, participação, cidadania. Coisa antiquada, não é? Aqui a gente tem uma platéia exemplar: cansada, mas super disciplinada, que aplaude até o malabarista atrapalhado que deixa a bola cair. Povo mesmo, aquele cheio de atitude e responsabilidade pensando nas futuras gerações? Que nada! Aqui só tem público mesmo: senta, assiste, às vezes reclama (só pra variar), ri de tudo e, no fundo, não faz mais nada além disso. Bravo, público! Palmas para vocês.

Na época de Lima Barreto, o Judiciário era discreto, quase tímido. Hoje, virou protagonista. Uma espécie de reality show jurídico.

Lá dentro se prende, se solta, se interpreta a Constituição no modo “cada semana um novo enredo”. Um ministro diz que prender ex-presidente por causa de vigília é normal. Pois é. Agora até rezar virou modus operandi de organização criminosa.

Mas quem somos nós para discordar? Afinal, somos públicos. Sabemos assistir, não influenciar. Cada brasileiro ganhou uma carteirinha invisível: “Você não é cidadão. Você é espectador.”

Enquanto isso, o Executivo finge que governa e o público finge que acredita. O país desliza para o abismo e a primeira-dama vive rindo, rindo do quê, exatamente? Talvez rindo de nós, que pagamos a conta para ela viajar, jantar, desfilar, postar foto, comprar flores e discursar. O gasto público virou piada.

A República tem uma cara, sim: uma mistura de stand-up com tragédia grega, governada por quem acha que o Brasil é extensão da sala VIP do aeroporto.

Crime? Que Crime? Lima Barreto viveu numa época de coronéis. Nós vivemos na era das facções com CNPJ. O crime organizado cobra taxas, dita regras, controla bairros inteiros, substitui o Estado e o governo finge que não vê, desde que não atrapalhe o discurso oficial.

As instituições fazem de conta que funcionam. O público faz de conta que acredita. E o país faz de conta que é uma democracia plena.

Brasil: 2025 ou 1922 com Wi-Fi? Mudou alguma coisa? Claro: agora temos redes sociais. O brasileiro virou espectador premium, com direito a comentar ao vivo o seu próprio processo de exploração no sofá do otário VIP.

Mas, enquanto os poderes disputam quem manda mais, o povo continua no mesmo lugar:

Na arquibancada, sem apito, sem voto efetivo, sem poder.

A história mudou as roupas, mas não o roteiro. A República virou um teatro e nós, os figurantes.

Se Lima Barreto estivesse vivo, talvez dissesse: “O Brasil continua não tendo povo. Tem público. Público paciente, acostumado, conformado. Público que paga ingresso caro para assistir à própria tragédia.”

Enquanto continuarmos apenas assistindo, o espetáculo continua. E quem ri por último não é o humorista, é o poder.

Por Naime Márcio Martins Moraes – Advogado e professor Universitário