O Novembro Azul chama a atenção para o rastreio do câncer de próstata, mas o cuidado com a saúde do homem não deveria restringir-se a um mês de campanha. A prevenção precisa ser contínua, sobretudo diante da relutância masculina em buscar auxílio médico.
O que temos hoje é um padrão de homens que evitam confrontar-se com a própria vulnerabilidade e adiam as idas ao médico. A última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2019, indicou que 69,4% dos homens consultaram médico nos 12 meses anteriores, ante 82,3% das mulheres. A consequência é grave: muitos só procuram ajuda médica na velhice, quando já enfrentam quadros irreversíveis por falta de prevenção ou de tratamento precoce.
Mesmo vivendo num país que é o segundo do continente americano e o primeiro da América Latina a implementar uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), é preciso considerar que a resistência está enraizada em vulnerabilidades socioculturais específicas da população masculina. Há, ainda, barreiras de acesso: 26,4% dos brasileiros não conseguem atendimento na primeira tentativa, seja na rede pública ou privada, segundo a PNS. A dificuldade em marcar consultas, a espera prolongada e a escassez de especialistas acabam penalizando aqueles que já adiam a busca por ajuda.
Chegar tarde demais aos serviços de saúde pode custar a qualidade de vida, sobretudo na terceira idade, e não apenas nos casos de doenças silenciosas como hipertensão, diabetes ou o próprio câncer de próstata.
Esse comportamento também acarreta consequências diretas em condições neurológicas que exigem diagnóstico rápido para preservar autonomia e qualidade de vida, como é o caso do Parkinson. Estudos mostram que a prevalência dessa condição é maior entre eles, sobretudo acima dos 50 anos de idade, e que eles levaram em média, seis meses, após os primeiros sintomas para buscar atendimento médico, enquanto as mulheres demoraram cinco meses. Embora discreto, esse atraso contribui para que o tempo total até o diagnóstico ultrapasse um ano em muitos casos — o que significa que os homens podem perder janelas decisivas para tratamento e reabilitação.
Os sintomas iniciais, que podem ser confundidos com sinais do envelhecimento natural, comprometem a qualidade de vida dos homens com Parkinson e cada mês perdido nesse processo significa uma oportunidade desperdiçada de iniciar acompanhamento especializado e planejar estratégias de reabilitação mais cedo.
O tratamento precoce, por sua vez, faz diferença. Quando o diagnóstico é realizado de forma ágil, é possível ajustar a medicação com maior segurança, orientar mudanças de estilo de vida e encaminhar o paciente para equipes multiprofissionais, incluindo fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.
A ciência avança para antecipar a identificação da condição. Em 2024, estudos identificaram biomarcadores sanguíneos capazes de prever o risco de Parkinson até sete anos antes do surgimento dos sintomas, o que abre perspectivas para triagens preventivas e acompanhamento individualizado no futuro. Contudo, essa novidade só terá impacto real se os homens tornarem o autocuidado mais presente e acessível. O conhecimento científico pode antecipar a identificação da doença, mas a primeira atitude ainda depende da decisão individual de romper a barreira da espera para viver mais tempo, com autonomia e qualidade de vida.
O Parkinson nos lembra que não se trata apenas de prolongar a vida, mas de vivê-la de forma digna — e o tempo é um recurso precioso nesse processo. Um mês de campanhas não basta: é preciso estar sempre alerta e buscar um serviço de saúde com regularidade ou antes que os sintomas avancem. Homens, não esperem novembro: o cuidado de hoje é o que vai assegurar uma vida plena amanhã.






